Imagine a situação: chega o primeiro dia do Enem e, entre milhões de participantes, está uma pessoa com deficiência visual total.
Ela recebe o tema da redação, pensa nos argumentos, organiza as ideias e começa a produzir seu texto.
Mas surge uma dúvida muito interessante:
Se ela não consegue escrever a redação à mão na folha convencional, quem coloca o texto no papel? E quem fica responsável por vírgulas, acentos, ortografia e gramática?
A resposta talvez surpreenda algumas pessoas.
O Enem oferece auxílio para transcrição
O Enem possui atendimento especializado para participantes com deficiência. Entre os recursos disponíveis está o auxílio para transcrição, definido pelo Inep como o serviço realizado por um profissional capacitado para transcrever as respostas das questões objetivas e a redação do participante.
Esse recurso precisa ser solicitado durante o período de inscrição e ter o atendimento confirmado pelo Inep.
Portanto, uma pessoa cega pode contar com um profissional para colocar sua redação na folha oficial.
Mas existe uma diferença fundamental:
o transcritor escreve; ele não produz nem corrige o texto.
Então posso simplesmente ditar as ideias e deixar o português por conta do transcritor?
Não.
A redação continua sendo do participante em todos os aspectos.
No Enem, uma das cinco competências avaliadas é justamente o domínio da modalidade escrita formal da Língua Portuguesa. Entre os aspectos observados estão grafia, acentuação, pontuação, concordância, estrutura das frases, escolha vocabular e registro formal.
Assim, o profissional de transcrição não pode ouvir:
“Escreva aí que educação é importante e arrume o português para mim.”
Isso transformaria o transcritor em coautor ou revisor da redação.
Sua função é registrar aquilo que o participante determina.
E como isso funciona na prática?
O candidato precisa construir mentalmente o texto e ditá-lo ao profissional.
Isso envolve não apenas as palavras, mas também a estrutura escrita desejada.
Por exemplo:
“A educação inclusiva, vírgula, apesar dos avanços registrados nos últimos anos, vírgula, ainda enfrenta importantes barreiras. Ponto.”
Quando há uma palavra cuja grafia possa gerar dúvida, pode ser necessário explicitar como ela deve ser escrita.
Imagine a palavra exceção. O participante não pode simplesmente deixar que o transcritor escolha a grafia correta caso essa escolha interfira na avaliação de seu conhecimento.
Estudos que acompanharam participantes com deficiência visual no Enem registraram justamente essa experiência: candidatos relatam precisar informar pontuação, acentos e até soletrar determinadas palavras, para que o texto escrito corresponda exatamente àquilo que pretendiam produzir.
Ou seja:
o cérebro e a redação são do candidato; a mão é do transcritor.
O transcritor pode corrigir um erro?
Não é essa a função dele.
Se o candidato disser uma construção inadequada, usar uma concordância incorreta ou escolher determinada palavra, o profissional não deve transformá-la silenciosamente em uma construção melhor.
Da mesma maneira, não cabe ao transcritor melhorar argumentos, trocar palavras, reorganizar parágrafos ou sugerir uma pontuação mais elegante.
Isso seria oferecer ao participante uma ajuda intelectual que os demais candidatos não recebem.
O princípio é justamente garantir acessibilidade sem retirar a autoria da prova.
Mas a pessoa cega obrigatoriamente precisa ditar a redação?
Não.
Esse é outro detalhe importante das regras do Enem.
O Inep estabelece que participantes com cegueira ou surdocegueira também podem redigir e entregar sua redação em braile. Para efeito de texto mínimo, enquanto uma redação manuscrita convencional com até sete linhas é considerada insuficiente, no sistema braile o limite previsto é de até dez linhas — portanto, é necessário ultrapassá-lo.
O participante que tenha familiaridade com o sistema também pode solicitar prova em braile e utilizar recursos próprios permitidos, como reglete, punção ou máquina de escrever em braile, conforme as regras do atendimento especializado.
Portanto, não existe apenas uma maneira de uma pessoa com deficiência visual total fazer a redação.
Ela pode, conforme o atendimento solicitado e autorizado, utilizar recursos de acessibilidade como o braile ou o auxílio para transcrição.
E o leitor de tela?
O Enem 2026 também oferece leitor de tela, com prova compatível com os programas DosVox e NVDA em computador disponibilizado pelo Inep.
É importante, porém, não confundir as funções dos recursos.
O leitor de tela oferece acesso ao conteúdo da prova. Já o auxílio para transcrição é o recurso previsto especificamente para registrar as respostas e a redação quando necessário.
Não significa que o candidato possa simplesmente produzir a redação em um editor de textos convencional com corretor ortográfico.
Pense no esforço envolvido
Para quem enxerga, uma vírgula exige apenas um pequeno movimento da mão.
Para quem está ditando uma redação, ela precisa entrar no próprio fluxo da fala:
“vírgula”.
“ponto”.
“novo parágrafo”.
E determinadas palavras podem exigir atenção adicional à grafia.
Uma pesquisa publicada na Revista Educação Especial, que ouviu participantes com deficiência visual sobre a acessibilidade no Enem, registrou justamente que a produção da redação com auxílio humano foi apontada como uma das etapas mais desafiadoras. Um participante cego relatou precisar dizer letras, acentos e pontuação durante a transcrição.
Isso exige memória de trabalho, concentração e planejamento textual bastante particulares.
Então a resposta à nossa pergunta é:
Não, ortografia e gramática não ficam por conta do transcritor.
O candidato continua sendo responsável pela redação inteira:
ideias, argumentos, palavras, estrutura, concordância, ortografia, acentuação e pontuação.
O profissional funciona, essencialmente, como a mão que registra fielmente o texto concebido pelo participante.
E existe ainda a possibilidade de o participante cego produzir e entregar sua própria redação em braile, seguindo as regras estabelecidas pelo Inep.
É um belo exemplo de uma ideia fundamental da acessibilidade:
oferecer o recurso necessário para que a deficiência não impeça a participação, sem substituir a capacidade, o conhecimento ou a autoria da pessoa com deficiência.
Fontes consultadas: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC), informações e regras do Enem 2026 e Cartilha da Redação; Revista Educação Especial, estudo sobre as perspectivas de pessoas com deficiência visual acerca da acessibilidade no Enem.
Cantinho dos Amigos Especiais — informação, inclusão e acessibilidade.
