É aí que entram as chamadas fantasias capacitistas — e, se você nunca ouviu esse termo, eu vou “desenhar” de forma bem clara: capacitismo é quando uma pessoa com deficiência vira alvo, vira piada, vira objeto, vira fantasia, em vez de ser reconhecida como alguém com direitos, dignidade e vida real.
O que torna uma fantasia capacitista?
A regra é simples: se o “conceito” do figurino é “parecer uma pessoa com deficiência” para provocar risos, choque ou pena, então não é criatividade — é desrespeito.
Alguns exemplos comuns:
-
“Fantasia de aleijado” (perna amarrada, falsa fratura, gesso, curativos, muleta “de brincadeira”).
-
“Fantasia de cego” (óculos escuros, bengala, tropeços e encenações de desorientação).
-
“Camisa de força / ‘fuga do hospício’” como fantasia “engraçada”.
-
Uso de cadeira de rodas, andador ou muletas como “acessório cômico”.
O problema não é o objeto em si. O problema é o sentido: quando um recurso de autonomia (como bengala, muleta, cadeira de rodas) vira enfeite, a mensagem que se espalha é: “isso é fantasia”, “isso é exagero”, “isso é palhaçada”. E quem paga o preço são pessoas reais, que usam esses recursos para viver com segurança.
“Mas é só Carnaval”: não, não é “só”
Quando alguém faz piada encenando uma deficiência, não está apenas “brincando”. Está reforçando ideias antigas e muito perigosas, como:
-
que a deficiência é motivo de riso;
-
que a pessoa com deficiência é “coitada” ou “incapaz”;
-
que recursos de acessibilidade são “drama” ou “frescura”;
-
que o corpo da pessoa com deficiência é um “tema” disponível para entretenimento.
A gente aprende — e replica — o que vê. E no meio de uma multidão, com bebida, empurrões e falta de cuidado, a caricatura vira combustível para mais falta de respeito.
O ponto mais grave: às vezes a “fantasia” prejudica alguém de verdade
Aqui vai o alerta que quase ninguém faz — e que precisa ser dito com toda a clareza:
Em muitos casos, esse tipo de figurino não é só ofensivo. Ele pode prejudicar alguém na prática.
Como assim?
-
A cadeira de rodas “de fantasia” ocupa espaço, dificulta passagem, atrapalha rotas de acessibilidade e pode impedir que uma pessoa com deficiência circule com segurança.
-
Muletas, bengalas e andadores usados como brincadeira viram risco: podem bater, derrubar, enroscar em alguém, machucar.
-
Pessoas cegas e com baixa visão podem ser confundidas com alguém “fazendo graça”, e isso diminui a seriedade quando pedem ajuda ou quando precisam que respeitem seu deslocamento.
-
Se alguém usa um recurso de acessibilidade para “chamar atenção”, cria-se desconfiança e julgamento, e isso respinga em quem depende desses recursos todos os dias.
Ou seja: quando você vê esse tipo de fantasia, não pense só no “politicamente correto”. Pense no concreto: há alguém ali que pode estar sendo prejudicado, invisibilizado ou colocado em risco.
O que fazer se você encontrar alguém usando uma fantasia capacitista?
Sem briga e sem “lacração”, dá para agir com firmeza e consciência:
-
Observe o entorno
-
A pessoa está ocupando passagem? Está atrapalhando quem precisa circular?
-
Há pessoas com deficiência por perto tentando se movimentar?
-
-
Se houver risco ou bloqueio, peça ajuste
-
“Oi, vocês conseguem liberar essa passagem? Tem gente que precisa transitar com acessibilidade aqui.”
-
-
Se for seguro, converse com educação
-
“Você já pensou que esse figurino pode reforçar preconceito e atrapalhar quem vive isso de verdade?”
-
-
Se estiver em bloco/evento organizado, acione a produção
-
Organizadores têm responsabilidade com segurança e respeito.
-
-
E principalmente: não normalize
-
Rir junto, filmar como “conteúdo”, incentivar… é o jeito mais rápido de transformar humilhação em tradição.
-
Carnaval também pode ser inclusão
O Carnaval pode ser um lugar de liberdade, sim — mas liberdade que pisa na dignidade do outro não é liberdade: é privilégio disfarçado de brincadeira.
Criatividade não falta. Dá para ser engraçado, ousado, irreverente e lindo sem transformar deficiência em figurino. Porque deficiência não é fantasia. É vida real. É direito. É respeito.
Fontes e links
-
Organização Mundial da Saúde (OMS/WHO) – Disability / Deficiência (conceitos gerais)
-
Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU) – texto e princípios
-
Lei Brasileira de Inclusão (LBI) – Lei nº 13.146/2015
-
Movimento/Cartilhas sobre capacitismo e linguagem inclusiva (materiais educativos)



