O Cantinho dos Amigos Especiais se manifesta com a serenidade de quem não deseja “polemizar”, mas com a firmeza de quem não pode aceitar que a deficiência seja transformada em cena de deboche — ainda mais quando envolve uma autoridade pública. Não é sobre “mimimi”. Não é sobre “interpretaram errado”. É sobre dignidade humana.
A ferida que esse tipo de atitude reabre
Para quem enxerga bem, pode parecer “só uma graça” de segundos. Para quem vive a deficiência visual — e para famílias que convivem com ela — isso costuma soar como aquilo que infelizmente já se repetiu a vida inteira: o riso em cima da limitação do outro.
A bengala não é adereço. É autonomia. É segurança. É direito de ir e vir. E, justamente por isso, qualquer simulação cômica desse instrumento comunica uma mensagem perigosa: a de que a experiência de uma pessoa com deficiência pode virar entretenimento.
Não dá para normalizar. Porque a normalização alimenta o terreno onde nascem:
o constrangimento em público;
a infantilização (“coitadinho”);
a falta de credibilidade (“tá fazendo cena”);
o desrespeito cotidiano que impede inclusão real.
“Mas foi no Carnaval…”
O Carnaval é cultura, alegria e liberdade — e também é um espaço onde o respeito precisa existir. O contexto festivo não transforma em aceitável aquilo que, em qualquer outro dia, seria claramente ofensivo. Autoridade pública não “tira férias” da responsabilidade ética quando entra num camarote.
O que esperamos de uma liderança pública
Sem ataque pessoal, sem linchamento virtual e sem torcida organizada: o mínimo esperado é um reconhecimento claro do erro e um compromisso com reparação. Quando a atitude parte de uma figura pública, o impacto é multiplicado — e a resposta também precisa ser.
O Cantinho dos Amigos Especiais considera adequado, por exemplo:
um pedido de desculpas objetivo, sem “se alguém se ofendeu”;
escuta ativa de pessoas com deficiência visual e entidades representativas;
ações concretas: campanhas educativas, formação anticapacitista e reforço de políticas de acessibilidade (não como propaganda, mas como compromisso).
Indignação, sim — com propósito
A nossa indignação é do tamanho do que está em jogo: a dignidade de milhões de brasileiros com deficiência. E ela não nasce do ódio; nasce do cansaço de ver a deficiência ser tratada como piada, como fantasia, como performance.
Quem ocupa cargo público precisa entender algo básico: inclusão não é discurso, é postura. E postura se prova nos pequenos gestos — principalmente quando ninguém está “no palanque”.
Conclusão
O Cantinho dos Amigos Especiais seguirá defendendo, com firmeza e respeito, uma sociedade em que pessoas com deficiência não sejam alvo de chacota, direta ou indireta. Esperamos que o episódio gere reflexão verdadeira — e que a resposta seja proporcional ao dano simbólico causado. Porque o Brasil precisa avançar: menos encenação, mais empatia; menos riso às custas do outro, mais compromisso com acessibilidade e respeito.
Fontes e links
Correio 24 Horas — “Vídeo de Eduardo Paes imitando pessoa com deficiência visual viraliza e gera críticas”
https://www.correio24horas.com.br/brasil/video-de-eduardo-paes-imitando-pessoa-com-deficiencia-visual-viraliza-e-gera-criticas-0226SBT News — “Prefeito Eduardo Paes é flagrado imitando pessoas cegas em camarote da Sapucaí; veja”
https://www.sbtnews.com.br/noticia/politica/prefeito-eduardo-paes-e-flagrado-imitando-pessoas-cegas-em-camarote-da-sapucai-veja
