sábado, 8 de agosto de 2026

Mesa de PCD não é mesa comum: acessibilidade também depende de atitude

Hoje vivi uma daquelas situações que parecem pequenas para quem observa de fora, mas que dizem muito sobre o que uma pessoa com deficiência encontra quando sai de casa.

Enquanto o Eduardo e minha mãe foram buscar a comida, fiquei procurando onde me sentar. Eu estava com dores e precisava ficar sentada. Encontrei uma mesa identificada com a placa de PCD e me acomodei.

O que chamou minha atenção foi que não existia apenas aquela mesa. Havia quatro mesas sinalizadas para pessoas com deficiência.

Naquele momento, porém, das quatro, a única que eu conseguia identificar como sendo utilizada por uma pessoa com deficiência era justamente a minha.

Nas outras, havia jovens, casais e famílias sem deficiência aparente. Faço questão de escrever “sem deficiência aparente” porque sei perfeitamente que nem toda deficiência é visível. Não posso olhar para uma pessoa e determinar sua condição de saúde.

Mas o que aconteceu depois tornou a situação muito mais séria.

Eu não precisei imaginar o que aconteceria se outro PCD chegasse

Em determinado momento, um cadeirante passou por ali procurando uma mesa.

Ele olhou.

Procurou lugar.

E ninguém se levantou.

Ali estava uma pessoa em cadeira de rodas procurando onde ficar, diante de mesas claramente identificadas como destinadas a PCD, e nenhuma daquelas pessoas ofereceu o espaço.

Eu permaneci sentada porque precisava daquela mesa. Sou pessoa com deficiência, estava com dores e naquele momento realmente necessitava ficar sentada.

Portanto, a questão nunca foi: “Alessandra queria mais uma mesa”.

Não.

Eu já tinha a minha.

A questão era muito maior: havia outra pessoa com deficiência precisando de um daqueles lugares.

E ela passou sem conseguir utilizá-los.

“Meu amor, não esquece de fotografar”

Quando o Eduardo voltou, falei com ele, até naquele meu jeito espontâneo:

“Meu amor, não esquece de tirar uma foto da mesa de PCD.”

Nós dois produzimos conteúdo sobre a realidade das pessoas com deficiência. O Cantinho dos Amigos Especiais e o Passeando com a Alê também existem para isso: registrar não somente aquilo que funciona, mas aquilo que ainda precisa melhorar.

Então pedi que ele fotografasse.

Não para colocar rostos de pessoas na internet nem para promover constrangimento individual. O que eu queria registrar era a situação.

Quatro mesas.

Placas de PCD.

Uma pessoa cadeirante procurando lugar.

E pessoas permanecendo sentadas.

O mais curioso foi perceber que, somente depois que falei com o Eduardo sobre fazer as fotografias, algumas pessoas começaram a se levantar.

E isso me deixou com uma pergunta:

Por que a possibilidade de uma fotografia provocou uma reação que a presença de um cadeirante procurando lugar não provocou?

“Está cheio, não tem problema”

Em uma das mesas aconteceu ainda outra situação que me marcou.

Um casal estava sentado ali e, depois, chegou outra família. Ao perceberem a sinalização, ouvi comentários no sentido de:

“Não tem problema sentar aqui. Está cheio.”

Mas é justamente quando está cheio que aquele espaço reservado se torna ainda mais necessário.

Quando há dezenas de mesas vazias, provavelmente ninguém precisará disputar lugar algum.

A importância de uma mesa destinada à pessoa com deficiência aparece exatamente nos momentos de maior movimento, quando conseguir sentar pode se tornar difícil.

Para algumas pessoas, esperar alguns minutos em pé é somente um incômodo.

Para outras, pode significar dor, desequilíbrio, risco de queda, exaustão ou simplesmente a impossibilidade de permanecer naquele ambiente.

Eu mesma estava com dores naquele momento.

A placa sozinha não produz acessibilidade

Fiquei pensando bastante nisso.

O estabelecimento colocou as placas.

As mesas estavam identificadas.

O espaço destinado ao PCD existia.

Portanto, fisicamente, havia uma preocupação com acessibilidade.

Mas acessibilidade não termina quando alguém coloca o símbolo de uma cadeira de rodas sobre uma mesa.

Existe outra parte que depende de nós.

A atitude.

Se eu utilizo temporariamente um espaço destinado a quem possui determinada necessidade, preciso estar atento para cedê-lo quando aquela pessoa chegar.

E naquele dia ela chegou.

Não era uma hipótese.

Não era aquela pergunta distante de “e se aparecer um cadeirante?”.

O cadeirante apareceu. Procurou mesa. E ninguém se levantou.

Talvez seja essa a parte mais triste de toda a história.

Não quero privilégios. Quero que a acessibilidade funcione.

Quando conto situações como esta, não estou dizendo que uma pessoa com deficiência deve ser tratada como alguém incapaz.

Também não estou pedindo que o mundo inteiro pare quando eu chegar.

Quero algo muito mais simples:

que aquilo que foi criado para garantir acessibilidade cumpra sua função quando alguém precisar.

Naquele dia, eu precisava da minha mesa.

Outro PCD precisou de uma das demais.

Eu consegui permanecer sentada.

Ele passou procurando.

Essa diferença explica toda esta matéria.

Por isso continuo acreditando que falar sobre essas situações é necessário. Algumas mudanças dependem de obras, adaptações e investimentos.

Outras dependem apenas de perceber quem está ao nosso lado.

Porque, naquele momento, a placa estava ali.
tiA pessoa que precisava também estava ali.
O que faltou foi consciência.

Acessibilidade não pode existir só na placa. Precisa existir também na atitude.

Texto por Alessandra Frederico.

Imagem produzida com inteligência artificial.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Semana Internacional do Cão de Assistência: autonomia, segurança e inclusão

 

Entre os dias 2 e 8 de agosto de 2026, celebra-se a Semana Internacional do Cão de Assistência. A data procura divulgar o importante trabalho realizado por esses animais, reconhecer a dedicação dos profissionais e voluntários envolvidos em seu treinamento e, principalmente, defender os direitos das pessoas com deficiência que contam com esse recurso de acessibilidade.

Um cão de assistência não é apenas um animal de estimação acompanhando seu tutor. Ele passa por um processo cuidadoso de socialização e treinamento para realizar tarefas específicas relacionadas à deficiência de uma pessoa.

Muito mais do que companhia

De acordo com a Assistance Dogs International, “cão de assistência” é um termo geral que inclui cães-guia, cães-ouvintes e cães de serviço treinados para executar tarefas que reduzam os impactos de uma deficiência.

Entre os principais tipos estão:

Cão-guia: auxilia pessoas cegas ou com baixa visão. Pode desviar de obstáculos, localizar portas, assentos, escadas e travessias, além de contribuir para uma circulação mais segura e independente.

Cão-ouvinte: ajuda pessoas surdas ou com deficiência auditiva, alertando sobre sons importantes, como campainhas, alarmes, telefones, choro de bebê e sinais de emergência.

Cão de serviço: pode auxiliar pessoas com deficiência física, mobilidade reduzida, autismo, epilepsia, diabetes ou outras condições. Dependendo do treinamento, o animal pode pegar objetos que caíram, abrir portas, acender luzes, ajudar no equilíbrio, buscar outra pessoa ou alertar sobre uma crise médica.

As tarefas são definidas de acordo com as necessidades individuais. Por isso, cada dupla formada pela pessoa e pelo cão possui sua própria forma de comunicação, confiança e trabalho em equipe.

Cão de assistência não é brinquedo

É natural sentir vontade de olhar, conversar ou acariciar um cão bonito e bem-comportado. Entretanto, quando estiver usando colete, arreio ou identificação de trabalho, ele precisa permanecer concentrado.

Ao encontrar uma dupla, algumas atitudes demonstram respeito:

  • Não acaricie, chame, assobie ou ofereça alimentos ao animal;
  • Não segure sua guia ou seu arreio;
  • Não permita que outro animal se aproxime sem autorização;
  • Fale diretamente com a pessoa, e não somente com o cão;
  • Antes de oferecer ajuda, pergunte se ela é necessária;
  • Não fotografe ou filme a dupla sem consentimento.

Uma distração aparentemente inocente pode impedir que o cão perceba um obstáculo, um som importante ou uma alteração na saúde de seu parceiro.

Não confunda as diferentes funções

Cães de assistência, cães de terapia e animais de apoio emocional podem exercer papéis importantes, mas não são necessariamente equivalentes.

O cão de assistência é treinado para realizar tarefas diretamente relacionadas à deficiência de uma pessoa. Já o cão de terapia geralmente participa de atividades em hospitais, escolas, instituições ou projetos, oferecendo interação e conforto a várias pessoas.

O animal de apoio emocional oferece benefícios por sua presença e vínculo com o tutor, mas pode não receber o mesmo treinamento especializado. Os direitos de acesso a espaços públicos também variam conforme a legislação de cada país ou localidade.

O direito de acesso no Brasil

No Brasil, a Lei Federal nº 11.126, de 27 de junho de 2005, assegura à pessoa cega ou com baixa visão acompanhada de cão-guia o direito de ingressar e permanecer com o animal nos meios de transporte e nos estabelecimentos públicos e privados de uso coletivo. Impedir ou dificultar esse direito constitui ato de discriminação.

O Decreto nº 5.904/2006, que regulamenta a lei, também proíbe a cobrança de valores adicionais relacionados à presença do cão-guia e determina que não se pode exigir focinheira como condição de entrada. O decreto ainda contempla animais em fase de socialização ou treinamento, quando acompanhados por pessoas habilitadas.

Na cidade de São Paulo, houve um importante avanço recente. A Lei Municipal nº 18.387/2026 ampliou a proteção para diferentes categorias de cães de assistência. A norma garante acesso aos espaços coletivos e aos meios de transporte da capital, incluindo táxis e transportes por aplicativo, e proíbe cobranças adicionais pela presença do animal.

Como as normas sobre outras categorias de cães de assistência ainda podem variar entre estados e municípios, é recomendável verificar a legislação aplicável em cada localidade.

Inclusão também depende de informação

A presença de um cão de assistência não representa privilégio. Ela representa acessibilidade, segurança, autonomia e participação social.

Ainda existem pessoas com deficiência que enfrentam recusas em estabelecimentos, transportes e serviços por falta de informação ou preconceito. Por isso, a Semana Internacional do Cão de Assistência também é uma oportunidade para combater as barreiras atitudinais.

Respeitar uma dupla significa compreender que aquele animal está trabalhando. Significa permitir que a pessoa exerça seu direito de estudar, trabalhar, viajar, utilizar transportes, fazer compras e participar da sociedade com mais liberdade.

Nesta semana — e durante todo o ano — compartilhe informação:

Não distraia o cão. Não separe a dupla. Não dificulte o acesso. Respeite a autonomia da pessoa com deficiência.

A inclusão começa quando transformamos conhecimento em atitude.

Cantinho dos Amigos Especiais
Informação, acessibilidade, respeito e inclusão.

domingo, 2 de agosto de 2026

Agosto Laranja: conscientização sobre a mielomeningocele e a hidrocefalia


Durante o mês de agosto, a cor laranja também representa uma importante mobilização pela conscientização sobre a mielomeningocele, condição frequentemente associada à hidrocefalia.

O movimento Agosto Laranja surgiu em Blumenau, Santa Catarina, e foi incluído no calendário oficial do município em 2017. A iniciativa procura dar visibilidade às pessoas com mielomeningocele, divulgar informações sobre prevenção e tratamento, apoiar as famílias e chamar a atenção para necessidades relacionadas à saúde, à educação, à acessibilidade e à participação social.

Mais do que divulgar informações médicas, a campanha nos convida a combater o preconceito e a compreender que crianças, adolescentes e adultos com mielomeningocele e hidrocefalia têm direitos, capacidades, sonhos e histórias que não podem ser reduzidos a um diagnóstico.

O que é a mielomeningocele?

A mielomeningocele, também chamada de espinha bífida aberta, é uma malformação congênita do sistema nervoso central. Ela ocorre quando o tubo neural, estrutura que dará origem ao cérebro e à medula espinhal, não se fecha completamente durante as primeiras semanas da gestação.

Como consequência, forma-se uma abertura na coluna vertebral, pela qual podem ficar expostos tecidos, meninges, nervos e parte da medula espinhal. A mielomeningocele é considerada uma das formas mais complexas de espinha bífida.

As consequências variam de uma pessoa para outra, conforme a localização e a extensão da lesão. Podem ocorrer:

  • redução ou perda de sensibilidade nos membros inferiores;
  • fraqueza muscular ou paralisia;
  • dificuldades para caminhar e se movimentar;
  • alterações ortopédicas;
  • bexiga e intestino neurogênicos;
  • necessidade de cateterismo urinário;
  • dificuldades relacionadas ao controle da urina e das fezes;
  • necessidade de cirurgias, reabilitação e acompanhamento contínuo.

A condição pode afetar principalmente o sistema nervoso central, o aparelho locomotor e o sistema geniturinário. Isso não significa, porém, que todas as pessoas terão as mesmas limitações ou necessitarão dos mesmos recursos.

Qual é a relação com a hidrocefalia?

A hidrocefalia é uma condição caracterizada pelo acúmulo de líquido cefalorraquidiano, também chamado de líquor, dentro das cavidades do cérebro. Esse acúmulo pode aumentar a pressão dentro do crânio e precisa de avaliação e acompanhamento especializado.

De acordo com a Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde, a hidrocefalia está presente em grande parte dos casos de mielomeningocele, com frequência estimada em aproximadamente 80%. Entretanto, isso não significa que todas as pessoas com mielomeningocele desenvolverão hidrocefalia.

Quando necessário, o tratamento da hidrocefalia pode envolver a colocação de uma válvula, conhecida como derivação, para retirar o excesso de líquido e conduzi-lo para outra região do corpo, geralmente o abdômen. A necessidade e o tipo de procedimento são definidos pela equipe médica de acordo com cada caso.

As pessoas que utilizam válvula precisam de acompanhamento médico regular. Mudanças importantes no comportamento ou no estado de saúde devem ser avaliadas rapidamente, especialmente quando houver suspeita de mau funcionamento ou infecção no sistema.

Ter hidrocefalia não autoriza ninguém a fazer suposições sobre a inteligência, a capacidade de aprendizagem ou o futuro de uma pessoa. Cada indivíduo possui características, necessidades, habilidades e potencialidades próprias.

Diagnóstico e tratamento

A mielomeningocele pode ser identificada ainda durante a gestação, por meio do acompanhamento pré-natal e de exames de imagem. O diagnóstico precoce ajuda a família e a equipe de saúde a planejarem o parto, os primeiros cuidados e o atendimento do bebê em um serviço preparado para realizar os procedimentos necessários.

Depois do nascimento, geralmente é necessário realizar uma cirurgia para fechar a abertura na coluna, proteger os tecidos nervosos e reduzir o risco de infecções e outros danos. Em situações selecionadas, também pode ser considerada a cirurgia fetal, realizada durante a gestação em centros altamente especializados.

O cuidado não termina após a primeira cirurgia. A pessoa pode necessitar de acompanhamento com diferentes profissionais e especialidades, como:

  • pediatria;
  • neurologia e neurocirurgia;
  • urologia;
  • ortopedia;
  • fisioterapia;
  • terapia ocupacional;
  • enfermagem;
  • psicologia;
  • nutrição;
  • assistência social;
  • profissionais da educação e da reabilitação.

A Diretriz Clínica Brasileira para o disrafismo espinhal aberto prevê cuidados desde o pré-natal, passando pelo nascimento e pela abordagem neurocirúrgica, até o acompanhamento ambulatorial e o apoio à família.

O ácido fólico ajuda na prevenção

A deficiência de ácido fólico está entre os fatores associados aos defeitos do tubo neural. Por isso, o planejamento da gestação, o acompanhamento de saúde antes da gravidez e a suplementação de ácido fólico, quando indicada por um profissional, são medidas importantes para reduzir o risco.

Como o tubo neural se forma e se fecha nas primeiras semanas da gestação, muitas vezes antes mesmo de a pessoa saber que está grávida, a orientação sobre o ácido fólico deve fazer parte do cuidado pré-concepcional.

É importante, contudo, não transformar a prevenção em culpa. Nem todos os casos podem ser prevenidos e, muitas vezes, não é possível determinar uma causa específica. O próprio Ministério da Saúde destaca que, na maioria das situações, não existe culpa individual da gestante ou da família.

A suplementação deve ser feita com orientação profissional, especialmente porque algumas pessoas podem precisar de recomendações individualizadas conforme seu histórico de saúde, medicamentos utilizados e gestações anteriores.

Inclusão na escola e na comunidade

Uma criança com mielomeningocele ou hidrocefalia não deve ser impedida de estudar, brincar, conviver e participar das atividades por causa de suas necessidades de saúde ou mobilidade.

A inclusão escolar pode exigir adaptações como:

  • espaços acessíveis para cadeira de rodas, andador ou outros recursos de mobilidade;
  • banheiro adaptado;
  • privacidade e condições adequadas para o cateterismo;
  • flexibilidade para consultas, tratamentos e períodos de recuperação;
  • adaptação das atividades físicas;
  • mobiliário adequado;
  • recursos de tecnologia assistiva;
  • combate ao bullying e às atitudes capacitistas;
  • participação da família e dos profissionais de saúde no planejamento escolar.

A Lei Brasileira de Inclusão garante à pessoa com deficiência o direito à educação inclusiva, com condições de acesso, permanência, participação e aprendizagem, além da oferta de recursos de acessibilidade para eliminar barreiras.

Incluir não é apenas permitir que a pessoa esteja presente. É oferecer condições para que ela participe com segurança, dignidade, autonomia e igualdade de oportunidades.

As necessidades continuam na vida adulta

Embora muitas campanhas falem principalmente sobre bebês e crianças, as pessoas com mielomeningocele e hidrocefalia crescem. Elas se tornam adolescentes e adultos que precisam continuar tendo acesso à saúde, à educação, à qualificação profissional, ao trabalho, à mobilidade, à vida afetiva, ao lazer e à participação social.

A transição do atendimento infantil para os serviços de saúde destinados a adultos precisa ser planejada. Interromper o acompanhamento pode trazer consequências para a mobilidade, a saúde dos rins, o funcionamento da bexiga e do intestino, a integridade da pele e o funcionamento da válvula utilizada no tratamento da hidrocefalia.

A sociedade também precisa abandonar a ideia de que a família deve resolver tudo sozinha. O poder público deve oferecer serviços de saúde, reabilitação, educação inclusiva, assistência social, acessibilidade e políticas que respeitem as necessidades de cada pessoa.

A família também precisa ser acolhida

Receber um diagnóstico durante a gestação ou após o nascimento pode despertar dúvidas, medo e insegurança. Por isso, as famílias precisam receber informações claras, atendimento humanizado e apoio emocional, sem julgamentos ou previsões deterministas sobre a vida da criança.

O cuidado centrado na família faz parte da linha de atendimento à mielomeningocele. Pais, mães e responsáveis precisam ser orientados sobre os procedimentos, os sinais que exigem atenção, os cuidados cotidianos e os serviços disponíveis.

Ao mesmo tempo, a família não deve ser vista apenas como cuidadora. Ela também precisa descansar, ser ouvida, dividir responsabilidades e contar com uma verdadeira rede de apoio.

Conscientizar é combater o capacitismo

Pessoas com mielomeningocele e hidrocefalia não precisam de pena. Precisam de atendimento adequado, respeito, acessibilidade, oportunidades e garantia de direitos.

Algumas caminham sem apoio; outras utilizam órteses, muletas, andadores ou cadeiras de rodas. Algumas precisam de auxílio em determinadas atividades; outras desenvolvem grande autonomia. Nenhuma dessas diferenças diminui o valor, a dignidade ou o direito de participar da sociedade.

O Agosto Laranja nos lembra que a informação pode prevenir, orientar e salvar vidas. Mas também nos ensina que a inclusão depende de atitudes concretas durante todos os meses do ano.

Que a cor laranja represente não somente a conscientização sobre a mielomeningocele e a hidrocefalia, mas também o compromisso com uma sociedade na qual cada pessoa seja respeitada, acolhida e reconhecida por tudo o que é capaz de construir.

Mielomeningocele e hidrocefalia fazem parte da vida de muitas pessoas, mas não definem sozinhas quem elas são. Por trás de cada diagnóstico existem sonhos, talentos, afetos, direitos e muitas possibilidades.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Quando a corrida é cancelada por causa da deficiência, não é “só um cancelamento”

Para muitas pessoas, ter uma corrida cancelada por um motorista de aplicativo representa apenas alguns minutos de atraso e a necessidade de solicitar outro veículo. Para uma pessoa com deficiência, porém, esse cancelamento pode produzir consequências muito mais graves.

Pode significar perder uma consulta médica, chegar atrasado ao trabalho, ficar exposto em um local inseguro ou simplesmente ser impedido de exercer, com autonomia, o direito de ir e vir.

O problema se torna ainda mais sério quando o cancelamento acontece depois que o motorista percebe que o passageiro utiliza cadeira de rodas, bengala, muletas, cão-guia ou necessita de algum tipo de auxílio. Como alerta o carrossel que inspirou esta matéria, nesses casos não estamos necessariamente diante de uma simples falha do serviço: a recusa pode representar exclusão, constrangimento e violação de direitos.

A deficiência não pode ser o motivo da recusa

Motoristas podem cancelar corridas por diferentes razões operacionais. O que não pode acontecer é a deficiência do passageiro ser utilizada como justificativa para negar o atendimento.

Quando o motorista chega ao local, observa a cadeira de rodas ou outra condição do passageiro e imediatamente cancela a viagem, sem sequer conversar ou verificar as possibilidades de embarque, cria-se uma forte suspeita de tratamento discriminatório.

O mesmo ocorre quando são utilizadas frases como:

“Não levo cadeirante.”

“Não cabe essa cadeira.”

“Vai estragar o carro.”

“Não transporto pessoa com deficiência.”

“Você deveria ter pedido outro tipo de veículo.”

É importante distinguir uma limitação concreta e comprovável do veículo de uma recusa baseada em preconceito ou em suposições. Uma cadeira de rodas dobrável, por exemplo, pode caber no porta-malas de muitos veículos comuns. Antes de cancelar, o motorista deve dialogar respeitosamente com o passageiro e buscar uma solução segura.

A pessoa com deficiência também deve ser ouvida. Ninguém deve tocar em seu corpo, cadeira de rodas, bengala ou demais equipamentos sem autorização. O correto é perguntar de maneira natural: “Como posso ajudar?”

O que determina a Lei Brasileira de Inclusão?

A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência — Lei nº 13.146/2015 — estabelece que toda pessoa com deficiência tem direito à igualdade de oportunidades e não deve sofrer qualquer forma de discriminação.

A legislação considera discriminação qualquer ação ou omissão que tenha o propósito ou o efeito de prejudicar, impedir ou anular o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais da pessoa com deficiência.

O artigo 46 da mesma lei determina que o direito ao transporte e à mobilidade deve ser assegurado às pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, por meio da identificação e da eliminação de obstáculos e barreiras.

Além disso, o artigo 88 estabelece como crime praticar, induzir ou incitar discriminação contra alguém em razão de sua deficiência. A pena prevista é de um a três anos de reclusão, além de multa. A caracterização criminal depende da análise das circunstâncias e das provas de cada caso, mas a legislação demonstra que uma conduta discriminatória não pode ser tratada como mero aborrecimento.

Em janeiro de 2026, por exemplo, a Polícia Civil do Amapá informou o indiciamento de um motorista de aplicativo após investigar a recusa de transporte de uma passageira que utilizava cadeira de rodas. Segundo a autoridade policial, a recusa injustificada do serviço, quando relacionada à deficiência, pode configurar conduta criminosa.

Um cancelamento pode limitar toda a rotina

Pessoas com deficiência frequentemente precisam planejar seus deslocamentos com maior antecedência. Algumas dependem de horários de medicamentos, acompanhantes, tratamentos, consultas, sessões de fisioterapia ou locais que ofereçam condições mínimas de acessibilidade.

Quando uma corrida é recusada, nem sempre basta chamar outro motorista. O novo veículo pode demorar, o preço pode aumentar e a pessoa pode permanecer sozinha, sob chuva, frio, calor ou em uma rua sem acessibilidade.

Há também o impacto emocional. Ser recusado diante de outras pessoas, como se a deficiência fosse um problema ou um inconveniente, produz constrangimento, insegurança e sensação de exclusão.

A pessoa não está pedindo um favor. Está pagando por um serviço oferecido ao público e espera recebê-lo com dignidade.

As empresas de aplicativos também têm responsabilidade

Não basta disponibilizar uma opção de chamada no aplicativo. As plataformas precisam desenvolver políticas efetivas de inclusão e prevenção da discriminação.

Entre as medidas necessárias estão:

  • capacitação dos motoristas sobre deficiência, acessibilidade e atendimento respeitoso;

  • canais acessíveis para reclamações e denúncias;

  • análise de motoristas que apresentam repetidas reclamações de recusa;

  • devolução imediata de taxas cobradas indevidamente após cancelamentos;

  • orientação sobre o transporte seguro de cadeiras de rodas, bengalas, muletas e outros equipamentos;

  • recursos compatíveis com leitores de tela, ampliação de letras e tecnologias assistivas;

  • respostas claras e humanas às denúncias apresentadas pelos passageiros.

A acessibilidade precisa estar presente desde o momento em que a pessoa abre o aplicativo até a chegada ao destino. Não começa apenas quando alguém abre a porta do carro.

O que fazer diante de uma recusa discriminatória?

A pessoa que passar por esse tipo de situação deve, sempre que possível, guardar provas do ocorrido.

É recomendável registrar:

  • capturas de tela da corrida e do cancelamento;

  • nome e fotografia do motorista;

  • placa e modelo do veículo;

  • data, horário e local;

  • mensagens trocadas pelo aplicativo;

  • áudios ou vídeos obtidos de maneira legal;

  • nomes e contatos de testemunhas;

  • protocolos das reclamações feitas à empresa.

O primeiro passo pode ser registrar a ocorrência no próprio aplicativo, explicando claramente que a corrida foi recusada após o motorista identificar a deficiência ou o equipamento de mobilidade.

Caso a resposta seja insatisfatória, o passageiro também pode procurar o Procon de sua cidade ou registrar uma reclamação no Consumidor.gov.br, desde que a empresa esteja cadastrada na plataforma. O serviço permite anexar documentos e acompanhar a resposta fornecida pela empresa.

Violações de direitos das pessoas com deficiência também podem ser denunciadas ao Disque 100. O canal funciona gratuitamente durante 24 horas, todos os dias da semana, e encaminha as denúncias aos órgãos responsáveis.

Quando houver ofensa, ameaça, humilhação ou indícios claros de discriminação, a vítima também pode procurar uma delegacia e registrar um boletim de ocorrência. Em determinadas cidades, existem ainda canais municipais específicos para reclamações relacionadas ao transporte por aplicativo.

Inclusão começa com respeito e informação

Muitos problemas poderiam ser evitados com capacitação. O motorista não precisa conhecer todas as deficiências, mas deve compreender princípios básicos de respeito, segurança e autonomia.

Perguntar como ajudar é melhor do que presumir que o passageiro não pode embarcar. Conversar é melhor do que cancelar. Procurar uma acomodação segura é melhor do que enxergar a deficiência como um problema.

Do outro lado, as empresas precisam deixar claro que atitudes discriminatórias não serão toleradas e que a inclusão faz parte da qualidade do serviço.

Conclusão

Uma corrida cancelada pode parecer algo pequeno para quem logo consegue solicitar outro veículo. Para a pessoa com deficiência, entretanto, essa recusa pode fechar a porta do trabalho, da saúde, do estudo, do lazer e da participação social.

Recusar um passageiro exclusivamente por causa de sua deficiência não é preferência pessoal e muito menos liberdade para escolher quem merece ser atendido. Dependendo das circunstâncias, pode ser uma forma de discriminação e uma violação do direito à mobilidade.

A verdadeira inclusão começa quando a pessoa com deficiência não precisa implorar para receber o mesmo serviço oferecido às demais pessoas. Ela começa quando existem acessibilidade, diálogo, preparo e respeito.

Porque transportar uma pessoa com deficiência não é fazer uma gentileza. É prestar um serviço com igualdade e dignidade.

Texto e imagem produzidos com inteligência artificial.
Autor responsável: José Eduardo Thomé de Saboya Oliveria.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Passageiros com deficiência ainda enfrentam dificuldades nos aplicativos de mobilidade urbana


Os aplicativos de mobilidade urbana tornaram-se importantes para o deslocamento de milhões de pessoas. Para muitas pessoas com deficiência, esses serviços representam mais autonomia, independência e segurança para ir ao trabalho, estudar, realizar consultas médicas, fazer compras ou participar de atividades sociais.

Entretanto, apesar dos avanços tecnológicos, passageiros com deficiência ainda passam por situações difíceis ao utilizar esses aplicativos. Muitas dessas dificuldades não acontecem necessariamente por má vontade dos motoristas, mas pela falta de informação, orientação e capacitação adequada.

A falta de preparo pode transformar uma viagem simples em um grande problema

Nem todos os motoristas sabem como atender corretamente uma pessoa com deficiência física, visual, auditiva ou intelectual. Alguns não sabem como oferecer ajuda, como se comunicar ou como agir diante de uma necessidade específica.

Uma pessoa com deficiência visual, por exemplo, pode precisar que o motorista informe claramente onde o veículo está parado, diga seu nome, confirme a placa ou descreva algum ponto de referência. Apenas buzinar ou permanecer dentro do carro aguardando pode não ser suficiente para que o passageiro encontre o veículo.

Já uma pessoa com deficiência física pode precisar de alguns minutos a mais para entrar no automóvel, guardar uma bengala, um andador ou outro equipamento de apoio. Em algumas situações, o motorista pode interpretar essa demora como um problema e cancelar a corrida antes mesmo de compreender o que está acontecendo.

Também existem passageiros que têm dificuldades de comunicação ou que necessitam de instruções mais claras e pacientes. Um atendimento apressado, impaciente ou desrespeitoso pode causar constrangimento, medo e até impedir que a pessoa conclua seu deslocamento.

Informação e capacitação podem evitar muitos problemas

Grande parte dessas situações poderia ser evitada com uma capacitação simples e objetiva oferecida pelas empresas aos motoristas parceiros.

Essa orientação deveria explicar, por exemplo:

  • como abordar uma pessoa com deficiência de maneira respeitosa;
  • como oferecer ajuda sem impor a ajuda;
  • como atender passageiros com baixa visão ou cegueira;
  • como transportar bengalas, andadores e outros equipamentos;
  • como agir quando o passageiro precisa de mais tempo para embarcar;
  • como se comunicar com pessoas surdas ou com dificuldades de fala;
  • como evitar atitudes capacitistas, constrangedoras ou discriminatórias.

O princípio mais importante é perguntar ao passageiro de que maneira ele prefere ser ajudado. Pessoas com a mesma deficiência podem ter necessidades diferentes. Portanto, o motorista não deve agir com base em suposições.

Uma pergunta simples, como “Posso ajudar de alguma maneira?”, pode fazer uma grande diferença.

A acessibilidade precisa estar presente também no aplicativo

Além do atendimento prestado pelo motorista, o próprio aplicativo precisa ser acessível.

Pessoas com baixa visão podem ter dificuldade para ler informações apresentadas com letras pequenas, pouco contraste ou botões difíceis de localizar. Pessoas cegas precisam que o aplicativo seja compatível com leitores de tela. Também é importante que as funções essenciais possam ser encontradas com facilidade, sem depender apenas de cores ou elementos visuais.

Relato aqui uma experiência pessoal com o aplicativo 99. Como pessoa com deficiência visual e baixa visão, percebi que algumas características do aplicativo dificultavam sua utilização. Enviei um e-mail à empresa explicando os problemas encontrados e relatando quais recursos seriam importantes para tornar o serviço mais acessível.

Depois dessa manifestação, observei melhorias na acessibilidade do aplicativo, incluindo a ampliação de elementos visuais e maior facilidade de uso para pessoas com baixa visão.

Essa experiência mostra como é importante que as empresas mantenham canais de comunicação acessíveis e estejam dispostas a ouvir seus usuários. Quando uma pessoa com deficiência apresenta uma reclamação ou sugestão, ela não está pedindo um privilégio. Está indicando uma barreira que pode prejudicar muitas outras pessoas.

Ouvir os passageiros também faz parte da inclusão

As empresas de mobilidade urbana deveriam consultar regularmente pessoas com diferentes tipos de deficiência durante o desenvolvimento e a atualização de seus aplicativos.

Não basta criar uma ferramenta e somente depois tentar corrigir os problemas. A acessibilidade precisa estar presente desde o planejamento do serviço.

Também é fundamental facilitar o registro de reclamações relacionadas à acessibilidade. O passageiro precisa conseguir informar, de maneira simples, se houve recusa de atendimento, falta de respeito, cancelamento indevido, dificuldade para localizar o veículo ou despreparo do motorista.

Essas informações poderiam ser utilizadas para identificar problemas recorrentes, melhorar os treinamentos e orientar os profissionais.

Tecnologia acessível gera autonomia

Para uma pessoa sem deficiência, uma falha no aplicativo pode representar apenas um pequeno incômodo. Para uma pessoa com deficiência, a mesma falha pode impedir uma viagem, causar atraso em uma consulta ou deixá-la sozinha em um local inseguro.

Por isso, acessibilidade não pode ser tratada como um detalhe opcional. Ela é indispensável para que todas as pessoas possam utilizar os serviços com igualdade, dignidade e segurança.

Os aplicativos de mobilidade urbana têm um enorme potencial de inclusão. Porém, para que esse potencial seja realmente alcançado, é necessário combinar tecnologia acessível, motoristas capacitados, atendimento humanizado e canais eficientes para ouvir os passageiros.

Conclusão

Pessoas com deficiência não querem tratamento infantilizado nem privilégios. Querem apenas utilizar os aplicativos de mobilidade urbana com autonomia, respeito e segurança.

Capacitar os motoristas, melhorar a acessibilidade dos aplicativos e ouvir as experiências dos passageiros são medidas possíveis e necessárias. Quando uma empresa corrige uma barreira, ela não beneficia apenas uma pessoa, mas amplia o direito de ir e vir de toda a sociedade.

A verdadeira inclusão acontece quando ninguém precisa passar por apuros para realizar uma viagem que deveria ser simples.

Texto e imagem produzidos com inteligência artificial.

Autores responsáveis: Gabriel Sznelvar e José Eduardo Thomé de Saboya Oliveira.