sábado, 8 de agosto de 2026

Mesa de PCD não é mesa comum: acessibilidade também depende de atitude

Hoje vivi uma daquelas situações que parecem pequenas para quem observa de fora, mas que dizem muito sobre o que uma pessoa com deficiência encontra quando sai de casa.

Enquanto o Eduardo e minha mãe foram buscar a comida, fiquei procurando onde me sentar. Eu estava com dores e precisava ficar sentada. Encontrei uma mesa identificada com a placa de PCD e me acomodei.

O que chamou minha atenção foi que não existia apenas aquela mesa. Havia quatro mesas sinalizadas para pessoas com deficiência.

Naquele momento, porém, das quatro, a única que eu conseguia identificar como sendo utilizada por uma pessoa com deficiência era justamente a minha.

Nas outras, havia jovens, casais e famílias sem deficiência aparente. Faço questão de escrever “sem deficiência aparente” porque sei perfeitamente que nem toda deficiência é visível. Não posso olhar para uma pessoa e determinar sua condição de saúde.

Mas o que aconteceu depois tornou a situação muito mais séria.

Eu não precisei imaginar o que aconteceria se outro PCD chegasse

Em determinado momento, um cadeirante passou por ali procurando uma mesa.

Ele olhou.

Procurou lugar.

E ninguém se levantou.

Ali estava uma pessoa em cadeira de rodas procurando onde ficar, diante de mesas claramente identificadas como destinadas a PCD, e nenhuma daquelas pessoas ofereceu o espaço.

Eu permaneci sentada porque precisava daquela mesa. Sou pessoa com deficiência, estava com dores e naquele momento realmente necessitava ficar sentada.

Portanto, a questão nunca foi: “Alessandra queria mais uma mesa”.

Não.

Eu já tinha a minha.

A questão era muito maior: havia outra pessoa com deficiência precisando de um daqueles lugares.

E ela passou sem conseguir utilizá-los.

“Meu amor, não esquece de fotografar”

Quando o Eduardo voltou, falei com ele, até naquele meu jeito espontâneo:

“Meu amor, não esquece de tirar uma foto da mesa de PCD.”

Nós dois produzimos conteúdo sobre a realidade das pessoas com deficiência. O Cantinho dos Amigos Especiais e o Passeando com a Alê também existem para isso: registrar não somente aquilo que funciona, mas aquilo que ainda precisa melhorar.

Então pedi que ele fotografasse.

Não para colocar rostos de pessoas na internet nem para promover constrangimento individual. O que eu queria registrar era a situação.

Quatro mesas.

Placas de PCD.

Uma pessoa cadeirante procurando lugar.

E pessoas permanecendo sentadas.

O mais curioso foi perceber que, somente depois que falei com o Eduardo sobre fazer as fotografias, algumas pessoas começaram a se levantar.

E isso me deixou com uma pergunta:

Por que a possibilidade de uma fotografia provocou uma reação que a presença de um cadeirante procurando lugar não provocou?

“Está cheio, não tem problema”

Em uma das mesas aconteceu ainda outra situação que me marcou.

Um casal estava sentado ali e, depois, chegou outra família. Ao perceberem a sinalização, ouvi comentários no sentido de:

“Não tem problema sentar aqui. Está cheio.”

Mas é justamente quando está cheio que aquele espaço reservado se torna ainda mais necessário.

Quando há dezenas de mesas vazias, provavelmente ninguém precisará disputar lugar algum.

A importância de uma mesa destinada à pessoa com deficiência aparece exatamente nos momentos de maior movimento, quando conseguir sentar pode se tornar difícil.

Para algumas pessoas, esperar alguns minutos em pé é somente um incômodo.

Para outras, pode significar dor, desequilíbrio, risco de queda, exaustão ou simplesmente a impossibilidade de permanecer naquele ambiente.

Eu mesma estava com dores naquele momento.

A placa sozinha não produz acessibilidade

Fiquei pensando bastante nisso.

O estabelecimento colocou as placas.

As mesas estavam identificadas.

O espaço destinado ao PCD existia.

Portanto, fisicamente, havia uma preocupação com acessibilidade.

Mas acessibilidade não termina quando alguém coloca o símbolo de uma cadeira de rodas sobre uma mesa.

Existe outra parte que depende de nós.

A atitude.

Se eu utilizo temporariamente um espaço destinado a quem possui determinada necessidade, preciso estar atento para cedê-lo quando aquela pessoa chegar.

E naquele dia ela chegou.

Não era uma hipótese.

Não era aquela pergunta distante de “e se aparecer um cadeirante?”.

O cadeirante apareceu. Procurou mesa. E ninguém se levantou.

Talvez seja essa a parte mais triste de toda a história.

Não quero privilégios. Quero que a acessibilidade funcione.

Quando conto situações como esta, não estou dizendo que uma pessoa com deficiência deve ser tratada como alguém incapaz.

Também não estou pedindo que o mundo inteiro pare quando eu chegar.

Quero algo muito mais simples:

que aquilo que foi criado para garantir acessibilidade cumpra sua função quando alguém precisar.

Naquele dia, eu precisava da minha mesa.

Outro PCD precisou de uma das demais.

Eu consegui permanecer sentada.

Ele passou procurando.

Essa diferença explica toda esta matéria.

Por isso continuo acreditando que falar sobre essas situações é necessário. Algumas mudanças dependem de obras, adaptações e investimentos.

Outras dependem apenas de perceber quem está ao nosso lado.

Porque, naquele momento, a placa estava ali.
tiA pessoa que precisava também estava ali.
O que faltou foi consciência.

Acessibilidade não pode existir só na placa. Precisa existir também na atitude.

Texto por Alessandra Frederico.

Imagem produzida com inteligência artificial.

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