E quando dizemos todas, é preciso incluir de verdade as mulheres com deficiência.
Porque prevenção não pode depender de conseguir subir em uma maca, permanecer em pé diante de um equipamento, enxergar um cartaz, ouvir uma orientação ou compreender sozinho um texto cheio de termos técnicos.
Prevenção também precisa ser acessível.
A deficiência não protege contra o câncer
Parece óbvio, mas ainda existe um problema preocupante: mulheres com deficiência podem encontrar mais dificuldades para realizar exames preventivos de câncer de mama e do colo do útero.
Estudos mostram que mulheres com deficiência apresentam menor participação em programas de rastreamento. Entre os obstáculos encontrados estão barreiras arquitetônicas, equipamentos inadequados, dificuldades de transporte, falta de informação em formatos acessíveis, pouco tempo durante as consultas e profissionais que nem sempre estão preparados para atender às necessidades específicas dessas pacientes.
Há ainda uma barreira que não aparece numa escada ou numa porta estreita: o preconceito.
Algumas mulheres com deficiência ainda enfrentam a equivocada suposição de que não possuem vida sexual e, por isso, não necessitariam de determinados cuidados ginecológicos. A literatura científica identifica justamente esse tipo de estigma como uma das razões capazes de afastar mulheres com deficiência do rastreamento do câncer do colo do útero.
Ter uma deficiência não torna uma mulher menos mulher, não elimina sua sexualidade e, principalmente, não elimina a necessidade de cuidados preventivos.
Câncer de mama: atenção aos sinais e à mamografia
Atualmente, o Ministério da Saúde recomenda a mamografia de rastreamento a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos, mesmo que não apresentem sinais ou sintomas. Mulheres fora dessa faixa podem necessitar de avaliação individualizada, especialmente diante de sintomas ou fatores de risco.
Além do rastreamento, todas as mulheres devem conhecer o próprio corpo e procurar um serviço de saúde quando perceberem alterações suspeitas nas mamas.
Para uma mulher com deficiência física, entretanto, até uma mamografia pode apresentar dificuldades que outras pessoas talvez nunca tenham imaginado.
A pessoa consegue permanecer em pé?
Consegue levantar e posicionar os braços?
O equipamento permite que o exame seja realizado sentada, quando necessário?
Existe alguém treinado para auxiliar com segurança numa transferência?
É possível reservar um pouco mais de tempo para o atendimento?
Essas perguntas não são detalhes. São questões de acessibilidade em saúde.
O próprio Ministério da Saúde já orientou que as limitações de mobilidade devem ser consideradas durante os exames das mamas, buscando-se posições confortáveis e adequadas para a mulher com deficiência.
E o câncer do colo do útero?
A prevenção ginecológica também não pode ser esquecida.
O câncer do colo do útero está fortemente relacionado à infecção persistente por alguns tipos de HPV e pode, em grande parte dos casos, ser prevenido por meio da vacinação contra o HPV, do rastreamento e do tratamento das lesões precursoras.
O Brasil está implantando um novo modelo de rastreamento, no qual o teste molecular para DNA-HPV oncogênico passa a ser o exame primário, dirigido às mulheres e demais pessoas com colo do útero de 25 a 64 anos que já tiveram atividade sexual. Quando o teste é negativo, a periodicidade recomendada é de cinco anos. Nos locais em que essa tecnologia ainda não estiver disponível, o exame citopatológico, conhecido como Papanicolau, continua sendo utilizado.
Mais uma vez, a acessibilidade precisa fazer parte desse atendimento.
Uma mulher com deficiência física pode necessitar de auxílio para transferência ou posicionamento na mesa ginecológica. Uma mulher surda pode precisar de recursos adequados de comunicação. Uma mulher cega precisa receber as explicações verbalmente e saber antecipadamente o que será feito durante o exame. Uma pessoa com deficiência intelectual pode precisar que cada etapa seja explicada com linguagem simples, tempo e respeito à sua autonomia.
Adaptar o atendimento não significa fazer um favor. Significa tornar possível o acesso à saúde.
Acompanhante não substitui a paciente
Existe ainda outro cuidado fundamental.
Quando uma mulher com deficiência está acompanhada, o profissional de saúde não deve simplesmente dirigir todas as perguntas ao acompanhante.
A paciente continua sendo a protagonista do próprio atendimento.
Sempre que possível, as explicações devem ser dadas diretamente a ela, de forma acessível, garantindo espaço para que faça perguntas, manifeste desconforto, dê consentimento e participe das decisões referentes ao próprio corpo.
A deficiência jamais deve ser motivo para infantilizar uma mulher ou retirar sua autonomia.
Acessibilidade também salva vidas
Quando pensamos em acessibilidade, muitas vezes lembramos imediatamente de rampas, elevadores, banheiros adaptados e vagas reservadas.
Tudo isso é fundamental.
Mas existe também a acessibilidade à prevenção.
Ela aparece quando uma unidade de saúde possui equipamentos adequados.
Quando a comunicação é acessível.
Quando o profissional pergunta à pessoa qual é a melhor maneira de ajudá-la, em vez de simplesmente presumir.
Quando existe tempo suficiente para fazer o exame com segurança.
Quando a paciente não deixa de realizar uma mamografia ou um exame ginecológico porque ninguém conseguiu acomodar sua deficiência.
Pesquisas sobre rastreamento do câncer mostram que barreiras físicas, comunicacionais, organizacionais e atitudinais podem afastar mulheres com deficiência dos exames preventivos.
Por isso, neste Outubro Rosa, o Cantinho dos Amigos Especiais deixa um lembrete que vale para pacientes, familiares, profissionais e gestores da saúde:
Mulheres com deficiência também precisam de prevenção.
Também precisam de informação.
Também precisam realizar seus exames.
E precisam encontrar serviços preparados para recebê-las com acessibilidade, dignidade, autonomia e respeito.
Porque uma campanha de prevenção só será verdadeiramente inclusiva quando nenhuma mulher deixar de cuidar da própria saúde simplesmente porque o serviço não estava preparado para atendê-la.
Neste Outubro Rosa, cuide-se, incentive quem você ama a se cuidar e ajude a espalhar esta mensagem: prevenção é um direito de todas.
