quarta-feira, 1 de julho de 2026

Torcer em silêncio também é torcer: os malefícios do barulho e dos fogos de artifício para pessoas com TEA, epilepsia e outros problemas neurológicos

Há quem pense que festa boa precisa ser barulhenta. Mas, para muitas pessoas, o excesso de som não é alegria: é dor, susto, medo, crise e sofrimento.

Fogos de artifício com estampido, buzinas, gritos, cornetas e caixas de som em volume alto podem transformar momentos de celebração em situações muito difíceis para pessoas com Transtorno do Espectro Autista, epilepsia, deficiência intelectual, síndromes neurológicas, idosos, bebês, pessoas hospitalizadas e também para animais.

Torcer é bonito. Celebrar também. Mas nenhuma comemoração precisa ferir quem está ao lado.

Quando o barulho vira agressão sensorial

Muitas pessoas autistas apresentam maior sensibilidade a sons, luzes, cheiros, texturas e movimentos. Isso significa que um barulho considerado “normal” por uma pessoa pode ser percebido como insuportável por outra. A National Autistic Society explica que a sobrecarga sensorial acontece quando a pessoa recebe mais estímulos do que consegue processar naquele momento, podendo levar a sofrimento e mudanças de comportamento.

No caso dos fogos de artifício, o problema se agrava porque o estampido costuma ser alto, repentino e imprevisível. A pessoa não sabe quando virá o próximo estouro, nem qual será a intensidade. Para quem tem hipersensibilidade auditiva, isso pode provocar ansiedade, choro, vontade de fugir, irritação, desorganização, automutilação, agressividade involuntária, insônia e crise sensorial. A Agência Brasil registrou alerta semelhante sobre fogos e crises sensoriais em pessoas autistas, especialmente pelo barulho intenso e inesperado.

Epilepsia: o risco não é apenas o som

No caso da epilepsia, é importante lembrar que nem toda pessoa com epilepsia tem os mesmos gatilhos. Ainda assim, certos fatores podem aumentar o risco de crises em pessoas suscetíveis, como privação de sono, estresse, luzes fortes piscando e padrões visuais intermitentes. A Epilepsy Foundation lista luzes piscantes, falta de sono e estresse entre possíveis gatilhos de crises para algumas pessoas.

Além disso, cerca de 3% das pessoas com epilepsia têm epilepsia fotossensível, condição em que luzes piscantes ou determinados padrões visuais podem desencadear crises. Por isso, fogos de artifício com flashes intensos, combinados com sustos, barulho, aglomeração e alteração da rotina de sono, podem ser especialmente preocupantes para esse grupo.

O barulho também afeta o corpo

O ruído não incomoda apenas “os ouvidos”. Ele pode afetar o sono, o sistema nervoso, o comportamento, a concentração, o humor e a sensação de segurança. A Organização Mundial da Saúde vem tratando o ruído ambiental como tema de saúde pública, associando-o a prejuízos como incômodo intenso, distúrbios do sono e impactos cardiovasculares e de saúde mental.

Para uma pessoa com condição neurológica, o corpo pode entrar em estado de alerta. O coração acelera, a respiração muda, a pessoa tenta se proteger, se esconde, tampa os ouvidos, chora ou se desorganiza. De fora, alguém pode julgar como “manha” ou “exagero”. Por dentro, pode ser sofrimento real.

Não é frescura. É acessibilidade.

Quando uma família pede menos barulho, ela não está querendo acabar com a alegria de ninguém. Está pedindo respeito.

Acessibilidade não é apenas rampa, piso tátil ou legenda. Acessibilidade também é pensar no ambiente sonoro. É entender que uma cidade inclusiva precisa considerar quem escuta de outro jeito, quem processa estímulos de forma diferente e quem pode ter sua saúde afetada por uma comemoração barulhenta.

No Brasil, o tema já chegou ao debate legislativo nacional. O PL 5/2022, em tramitação na Câmara dos Deputados, trata da restrição a fogos de artifício de estampido e outros artefatos pirotécnicos que produzam estampidos, com justificativa ligada aos direitos de pessoas com deficiência, idosos e animais.

Como torcer e celebrar com respeito

É possível comemorar sem causar sofrimento. Algumas atitudes simples fazem muita diferença:

  1. Preferir fogos sem estampido, shows de luzes, drones ou efeitos visuais silenciosos.

  2. Evitar buzinas, cornetas e gritos prolongados perto de casas, hospitais, escolas, instituições e locais com crianças, idosos ou pessoas com deficiência.

  3. Avisar vizinhos e familiares quando houver alguma celebração prevista.

  4. Respeitar quem usa abafador, fone, protetor auricular ou precisa se retirar do ambiente.

  5. Ensinar crianças e adultos que inclusão também se pratica na hora da festa.

  6. Cobrar do poder público campanhas educativas e fiscalização das leis municipais sobre fogos com estampido.

  7. Lembrar que alegria de verdade não precisa machucar ninguém.

Torcer em silêncio também é torcer

A pessoa que não grita também vibra.
A pessoa que não suporta fogos também ama a festa.
A pessoa que se protege do barulho também participa do mundo.

Torcer em silêncio também é torcer.
Celebrar com respeito também é celebrar.
E pensar no outro é uma das formas mais bonitas de mostrar humanidade.

Antes de soltar fogos, buzinar sem parar ou aumentar o som, pergunte-se: quem pode estar sofrendo com isso?

A verdadeira festa é aquela em que todos podem existir com segurança, dignidade e paz.

Cantinho dos Amigos Especiais
Inclusão, respeito e acessibilidade também fazem parte da comemoração.

Texto e imagem produzidos com inteligência artificial.
Autor responsável: José Eduardo Thomé de Saboya Oliveira

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