segunda-feira, 18 de junho de 2018

Acaba em novembro prazo para que parte das salas de cinema do País seja acessível aos cegos


De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 6,5 milhões de pessoas têm deficiência visual no País

Ana Carolina Sacoman, O Estado de S.Paulo
17 Junho 2018 | 06h00

Misako estuda cada detalhe do filme, passa dias tentando traduzir em palavras o “céu pálido” visto na tela. Ela não deve interferir no entendimento da película, não pode invadir a fala dos personagens nem expressar opiniões pessoais. Tem de estar presente e ausente ao mesmo tempo. Seu desafio é fazer com que cegos ou pessoas com a visão reduzida entendam a trama e, mais, se emocionem.

Ela é a personagem principal de Esplendor (Radiance/Hikari), filme japonês de 2017 que mostra o dia a dia - e os conflitos - de uma profissional que trabalha com audiodescrição. “Fazemos com que um adulto que perdeu a visão perceba que pode voltar a fazer as coisas de antes”, resume Livia Motta, audiodescritora “na vida real” e autora de livro sobre o assunto. “A audiodescrição abre caminhos para a leitura do mundo.”

Gravando!. Estúdio de audiodescrição da empresa Iguale, em SP Foto: Gabriela Biló/EstadãoEsses caminhos, porém, já poderiam estar um tanto mais abertos no Brasil. É que, desde julho de 2015, o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146) estabelece, no Artigo 67, que “serviços de radiodifusão de sons e imagens devem permitir o uso de subtitulação de legenda oculta, janela com intérprete de Libras e audiodescrição”, na tentativa de promover a inclusão de cegos e surdos.

Prazos. A Agência Nacional de Cinema (Ancine) então formou grupos de discussão sobre o assunto e, entre outras questões, foram definidos prazos para a implementação da acessibilidade nos cinemas. E aí as coisas se complicaram.

Em setembro de 2016, a Instrução Normativa 128 definia que, em 14 meses, 50% dos grandes exibidores (a partir de 21 salas de cinema no País) e 30% dos pequenos (para grupos de até 20 salas) deveriam ser acessíveis, chegando a 100% das salas dali a 24 meses, ou seja, em setembro de 2018. Pouco mais de um ano depois, nova Instrução Normativa, de novembro de 2017, estendia os prazos, começando com a acessibilidade parcial em novembro próximo. Mas há quem acredite que será difícil cumprir a norma mais uma vez.

“A lei brasileira é única no mundo, pois também exige a acessibilidade via Libras (Língua Brasileira de Sinais), o que criou grande resistência dos exibidores”, diz Paulo Romeu, consultor técnico da Organização Nacional de Cegos do Brasil e autor do Blog da Audiodescrição.

É que, como acontece com a TV há mais tempo, a acessibilidade via Libras, para surdos, exige aquele “quadradinho” com o intérprete em um pedaço da tela, o que poderia causar estranheza no público em geral. “Enquanto o mundo trabalha em uma solução de acessibilidade tanto no hardware quanto no software, o Brasil tem essa outra questão (das Libras) para ser resolvida”, afirma o presidente da Ancine, Christian de Castro.

Ele aponta ainda uma outra dificuldade: os sotaques. “Uma legendagem de Libras no Sul teria diferença de uma no Norte e Nordeste. Como no interior de São Paulo é diferente da capital ou do Rio. Isso é uma particularidade brasileira.”

Pepino. “O Brasil tem uma lei de inclusão ampla, com uma força grande, que fala de acessibilidade de sites e manifestações culturais. Por outro lado, a lei assustou muita gente que não tinha pensado nesse público”, acredita Mauricio Santana, vice-presidente da Associação Brasileira de Audiodescrição (Abrad) e diretor da Iguale, empresa que produz conteúdo acessível e representa no Brasil o aplicativo de acessibilidade MovieReading.

Público que não é pequeno: de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 6,5 milhões de pessoas têm deficiência visual no País. Outros 9,7 milhões são deficientes auditivos.

Se o pioneirismo dificulta todo o processo, a pirataria também não ajuda a discussão a andar. Enquanto a legenda descritiva e a audiodescrição podem ser feitas pelos próprios estúdios, a linguagem de Libras teria de ser trabalhada por terceiros, o que aumenta o risco de as cópias de filmes chegarem às mãos dos camelôs muito antes de irem para as salas de projeção. “A gente quer ter acessibilidade, que o cinema chegue ao maior número de pessoas possível, sobretudo o filme brasileiro, mas não podemos correr o risco de dilapidar o valor da propriedade intelectual”, diz Castro, da Ancine.

Recente. Realidade nos Estados Unidos desde os anos 70, a audiodescrição é relativamente recente no Brasil. A primeira vez que o recurso apareceu por aqui foi em 2003, no festival de cinema Assim Vivemos, de filmes sobre pessoas com deficiência, patrocinado pelo Banco do Brasil. De lá para cá, algumas iniciativas começaram a promover a inclusão dos cegos às salas de cinema.

Uma delas é o Festival Melhores Filmes, do Cinesesc, em São Paulo, que há sete anos exibe películas com legendas abertas (detalhadas) e audiodescrição feita ao vivo. “O festival é uma missão, mas gostaria que toda a programação fosse acessível”, afirma a gerente adjunta do Cinesesc, Simone Yunes. “Já melhorou muito, mas no começo as distribuidoras não entendiam por que tinham de mandar o DVD do filme antes, foi bem difícil, e ainda é, mas isso começa a mudar.”

A mudança é bem mais lenta do que gostariam os beneficiados. Dos 42 espaços, com várias salas, listados em São Paulo pelo Guia de Acessibilidade Cultural, feito pelo Instituto Mara Gabrilli, apenas cinco oferecem opções de audiodescrição e legendagem, mediante pedido. A maioria das salas limita a acessibilidade de cegos a elevadores com aviso sonoro, guia vidente e cardápio do café em braile.

Procurados, Cinemark, Cinépolis e Grupo Severiano Ribeiro, os três maiores exibidores do País, segundo ranking de 2016 da Ancine, não quiseram comentar.

DEPOIMENTO DE PAULO ROMEU, AUTOR DO BLOG DA AUDIODESCRIÇÃO

“Perdi a visão em 1980, aos 22 anos, em um acidente de carro, e só fui voltar ao cinema há 5 ou 6 anos, quando descobri que o Cinesesc estava fazendo um festival com audiodescrição. Passei 30 anos sem interesse pelo cinema porque não achava justo pagar ingresso inteiro para assistir a meio filme, não valia a pena.

A diferença (entre alguém descrevendo a cena e a audiodescrição) é como água e vinho. O audiodescritor já conhece o filme, sabe quais elementos em cena precisam ser descritos para a pessoa entender a trama. Quando minha mulher ou outra pessoa descreve o filme para mim, ela diz, por exemplo, que um vestido é bonito ou feio. O profissional descreve a roupa em detalhes, faz diferença. Minha mulher também costumava pular cenas, para não perder o fio da meada, ou demorava para descrever, e eu ficava perdido.

Comecei a usar os aplicativos de audiodescrição e as coisas mudaram. Antes, quando emendava o cinema e um jantar com amigos, passava o tempo à mesa tentando entender o filme, juntando as peças que perdi. Hoje, uso esse tempo para, como eles, discutir o filme, dizer o que gostei ou não. Ganhei autonomia.”

3 PERGUNTAS PARA CHRISTIAN DE CASTRO - PRESIDENTE DA ANCINE

1. O prazo será cumprido?

Existem questões técnicas específicas relacionadas a isso, que precisam ser tratadas, tanto pelos exibidores como pelos distribuidores. Não queremos correr o risco de criar uma solução momentânea e logo depois ter de trocar isso porque não foi viável.

2. Qual é a dificuldade?

Tem o hardware, o software, a questão da pirataria e a solução das Libras a serem resolvidas. Essas questões serão debatidas nas câmaras técnicas (reuniões com exibidores, distribuidores e representantes da sociedade civil, que serão feitas até o fim do ano).

3. Como estamos em relação ao resto do mundo?

Hoje os principais players, não só locais como globais, estão olhando para a solução que vai sair do Brasil, porque provavelmente será replicada no mundo inteiro.

Teatros, museus e até casamentos têm audiodescrição

Enquanto nos cinemas a acessibilidade para cegos anda em marcha lenta, teatros, museus, salas de espetáculos e centros culturais em São Paulo parecem dar mais atenção a esse público, que soma 53 mil pessoas na capital - outras 292 mil têm “grande dificuldade para enxergar” -, de acordo com o Censo de 2010 do IBGE.

Na Sala São Paulo, no centro, por exemplo, há sessões de música clássica e ópera com audiodescrição. “Esse público não pode mais ser ignorado. Toda vez que fazemos espetáculo com audiodescrição vem gente nova”, afirma Livia Motta, que faz o trabalho ao vivo na Sala São Paulo, mas também em cinemas, teatros, museus e até em missas e casamentos. “Todos conseguem saber como é o vestido da noiva ou como a igreja está decorada nesses eventos especiais”, conta Livia.

Localizado no Morumbi, na zona sul, o Teatro Vivo aparece entre os bem ranqueados no quesito acessibilidade. O espaço deixou de oferecer serviço de audiodescrição para os expectadores, mas ele deve voltar após a reforma do teatro, prevista para começar nos próximos meses e que deve ser concluída no primeiro trimestre de 2019.

Entre os museus, a Estação Pinacoteca, no centro da capital, tem vários recursos para pessoas com deficiência, incluindo audiodescrição.

APLICATIVOS

* MovieReading. O aplicativo promete, ao toque de um botão, identificar a trilha do filme. Ele então reconhece a película e descarrega a audiodescrição ou a legenda sincronizada. Android e ios.

* Whatscine. Também reconhece o filme e descarrega a audiodescrição, mas funciona em determinadas salas de cinema. Android e iOS.

* Ideal AD Movie Viewer. Tem lista predeterminada de filmes. Em inglês. Android.



EM NÚMEROS

* 82 mil pessoas são cegas no Brasil e outras 6,5 milhões têm deficiência visual, de

acordo com o IBGE

* 3 mil salas de cinema estão espalhadas pelo País

* 7% das cidades brasileiras têm cinema

Fonte: Estadão

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Eleita para ONU, deputada brasileira com deficiência critica cortes de Temer


14.jun.2018 às 17h26

Na sede da ONU, Mara, que é tetraplégica em decorrência de um acidente automobilístico Foto: DivulgaçãoEm seu segundo mandato como deputada federal pelo PSDB-SP e de olho numa vaga ao Senado por São Paulo, Mara Gabrilli, 50, foi eleita nesta semana, em Nova York, para compor o comitê das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.

É a primeira brasileira na história a conseguir o cargo que, para a gestão que começa no ano que vem e vai até 2022, foi uma das mais concorridas da ONU, com 35 postulantes. Ela conquistou 85 votos.

Mara falou em primeira mão ao blog após a votação. Fez críticas ao governo Temer por cortes nos orçamentos dos esportes olímpicos e paraolímpicos, falou dos desafios que enfrentará na função e como pretende estimular o país a organizar cobranças e denúncias pelo respeito à diversidade


1 – O que muda nas vidas pessoas comuns ter você como representante na ONU?

Antes de tudo, é importante dizer que essa eleição significa uma grande vitória para o Brasil, que através dos movimentos sociais, lutou muito para que essa Convenção (Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência) fosse aprovada.

Fomos um dos primeiros países a ratificar a convenção e um dos poucos do mundo que a incorporaram à legislação interna do país. Participar de discussões do âmbito das Nações Unidas nos permite ter acesso a informações e a uma nova agenda que impacta na própria agenda de políticas públicas do Brasil.

Hoje, por exemplo, um dia após minha eleição (no dia12/06), me reuni com a Daniela Bas, Diretora de Desenvolvimento Econômico e Social da ONU, com quem falei sobre a importância do esporte para a construção da paz e do desenvolvimento, um lema fortemente defendido pela ONU.

Coincidentemente, hoje também, tive a notícia de uma Medida Provisória do governo que retira verba do esporte olímpico e paraolímpico, destinando para a segurança. É uma medida que vai à contramão de tudo que está sendo discutido em todo o mundo.

O esporte é uma forma de prevenção à violência e, talvez, se investíssemos mais no esporte, não estaríamos com índices tão altos de violência no país. Estar incluída nessa agenda internacional vai nos permitir trazer novas ideias ao país, não só para pessoas com deficiência, mas para todos os públicos.

2 – A sua eleição foi bem disputada. O mundo está mais de olho nas questões que envolvem diversidade, pessoas com deficiência?

Foi a eleição mais difícil da história do sistema das Nações Unidas, por conta do número de países que apresentaram candidaturas. Em determinado momento, esse número chegou a 35 e isso nunca havia acontecido.

Depois, aos poucos, alguns países retiraram as candidaturas, permanecendo 22 na disputa. Acho que esse número de candidaturas apresentadas para um comitê temático na pessoa com deficiência mostra que o mundo está de olho nesse tema, de olho nas questões relacionadas à acessibilidade.

Vivemos um momento de foco não apenas na diversidade, mas especialmente de foco na causa, e isso acontece no mundo inteiro, que começa a perceber que a política pública para a pessoa com deficiência é uma política pública para todos. Quando uma cidade fica melhor para quem tem deficiência, ela fica melhor para toda e qualquer pessoa.

3 – Sua eleição foi feito inédito pelo país, tem alguma plataforma específica que pretende defender?

Fui eleita apresentando oito propostas de trabalho, das quais destaco uma que é fruto das demandas que recebo diariamente em meu gabinete, como deputada: trabalhar pela celebração de acordos bilaterais e multilaterais para a desoneração tributária de tecnologias assistivas.

No Brasil, por exemplo, o custo de uma tecnologia assistiva ainda é muito alto, e muito por conta da alta taxa de impostos. Outra proposta é desenvolver estratégias que oportunizem, estimulem e fortaleçam o monitoramento independente da convenção pela sociedade civil.

Quero trabalhar também pela reabilitação, que é precária ou inexistente em muitos países do mundo. São demandas que nos chegam através da própria sociedade civil.

O mandato de Mara Gabrilli começa no ano que vem e vai até 2022 Foto: Divulgação4 – De que maneira você espera ver refletida sua posição, agora mundial, dentro dos atrasos inclusivos do Brasil?

Sou representante da sociedade no parlamento brasileiro, sou tetraplégica – uma deficiência considerada severa – e antes de entrar para a política, já era militante da área.

De certa forma, minha presença no comitê vai expor o Brasil. Como brasileira e membro do comitê, não poderei monitorar o Brasil, mas algum outro membro o fará, e o fará com olhos clínicos, por termos um representante no Comitê.

Minha presença ali faz com que o próprio país tenha que se preparar melhor, se mobilizar para não passar vergonha. Minha responsabilidade aumenta, assim como minha formas de atuação para lutar pelos direitos das pessoas com deficiência.

E como membro de um comitê expert e independente na temática, a partir do ano que vem, quando começará meu mandato, terei o dever de informar e orientar a sociedade civil nacional sobre os papéis do comitê, os caminhos para se fazer denúncias coletivas e individuais e os mecanismos de promoção, implementação e monitoramento da convenção.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Mara Gabrilli Representa Brasileiros com Deficiência na ONU




Obtendo os votos de 103 dos 175 países
que votaram na segunda rodada do processo
de escolha, a Deputada Federal Mara Gabrillli
passa a integrar o  Comitê da ONU sobre os Direitos
das Pessoas Com Deficiência.
Seu período como integrante
do Comitê irá de 2019 a 2022.

Mara é a primeira representante
do Brasil no Comitê.

Fonte: Facebook - Mara Gabrilli

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Um estágio para lidar com deficiências. De todos nós





Maria do Carmo (ao centro),
com a estagiária Stephanie e a mãe dela,
Vanda
No começo foi difícil. Alfredo de Campos Adorno, supervisor de SGP.13 (Secretaria das Comissões Extraordinárias e Temporárias), conta que precisou de longas conversas com Maria do Carmo Apelian de Oliveira, de SGA.14 (Seleção, Desenvolvimento e Avaliação de Pessoal), para saber como agir com os estudantes do Programa de Estágio para Estudantes com Deficiência Intelectual, a partir de 2011.
Segundo Alfredo, os funcionários simplesmente não sabiam como se relacionar com a estagiária que apresentava essa deficiência. Alguns a tratavam de um jeito condescendente, como se fosse uma filha, e não uma colega. Outros mostravam-se impacientes e tinham dificuldade, em alguns momentos, de reconhecer os limites apresentados pela estagiária.
Na época, o programa estava no começo e ainda era visto com resistência entre muitos funcionários da Casa. “Muitos mostraram-se preocupados e inseguros em relação à forma de como lidar com os estagiários com deficiência intelectual e de como inseri-los em seu ambiente de trabalho”, conta Maria do Carmo.
Nas conversas, ela aconselhou que Alfredo continuasse a tentar, observando a estagiária com atenção e tentando vê-la como ela realmente era. “Conversar com Maria do Carmo equivale a um treinamento”, lembra Alfredo. “Tive com ela uma análise profissional e uma visão técnica que me mostraram aspectos que desconhecia, no que diz respeito ao emocional humano, o que me possibilitou um olhar muito mais abrangente de um programa elogiável.”
A deficiência de todos
Com tempo e trabalho, a equipe foi percebendo que a estagiária tinha necessidades especiais que precisavam ser observadas, mas também podia encarar desafios e superar limites como qualquer pessoa. “Atender telefones, por exemplo. É claro que no começo ela não seria tão eficiente como outras pessoas, mas podia aprender. As pessoas tinham receio de que ela cometesse algum erro, mas entendemos que erros são inevitáveis no processo de aprendizado, além de termos uma equipe comprometida com o programa. Eventuais equívocos foram contornados” conta Alfredo.  E, de erro em erro, a estagiária aprendeu o certo pela prática.
Do mesmo jeito, a equipe passou a errar menos no relacionamento com a jovem. Foi um aprendizado coletivo, que mobilizou toda a equipe. “Aprendemos a ter um olhar especial para ela, não complacente, mas objetivo”, conta Alfredo. E, o mais surpreendente, começaram a perceber que a deficiência não estava na estagiária, mas em todos os membros da equipe, os que se viam como “normais”.
“Eu comecei a ver que a deficiência estava em mim, no modo como eu me relacionava com ela. Se eu me dirigia a ela de um jeito que a feria, então eu tinha uma deficiência para me comunicar. Se eu explicava e ela não entendia, o problema era eu não saber explicar”, relata.
Foi assim que a equipe aprendeu na prática a noção, descrita na Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, de que a deficiência não faz parte de uma pessoa, como um braço ou uma perna, mas que “resulta da interação entre pessoas com deficiência e as barreiras atitudinais e ambientais que impedem sua plena e efetiva participação na sociedade em igualdade de oportunidades com as demais pessoas”.
“Apesar de dificuldades, que considerei  além de razoáveis na época, eu reconheci  a magnitude do trabalho desenvolvido, a importância de trabalhar de forma séria e permanente, de persistir em uma atividade para a qual, penso,  a CMSP é pioneira”, afirma Alfredo.
“Foi transformador”, resume o supervisor. Transformador para as estagiárias, que aprenderam a ir além dos próprios limites e se empoderaram. E transformador para a própria equipe, que aprendeu a enxergar as próprias falhas no relacionamento daquela jovem que viam como diferente. “O grupo todo mudou depois disso”, define.
Eles não estavam mesmo preparados, isso ele reconhece. Mas ninguém poderia estar. “Ninguém pode estar preparado para isso. É algo que só se aprende fazendo”, diz.
Desafio
Expectativa e apreensão. Foi o que a implantação do Programa de Estágio para Estudantes com Deficiência Intelectual despertou. E isso em todo mundo: pais, estudantes, familiares, funcionários. Foi um desafio que a equipe de SGA.14 abraçou, sabendo que era uma briga que valia a pena.
“Eu vi que, através desse trabalho, se fosse bem feito, a gente poderia fazer diferença na vida dessas pessoas: acolhendo, orientando, treinando, preparando”, conta Maria do Carmo. “A gente tinha a proposta de incluir essas pessoas no mercado de trabalho e de também fazer com que as barreiras internas da Câmara fossem vencidas por elas.”
Logo que foi implantado, em 2011, com a criação de 15 vagas de estágio para estudantes do ensino médio com deficiência intelectual, o programa se deparou uma dificuldade: encontrar jovens regularmente matriculados em instituições reconhecidas pelo MEC (Ministério da Educação), uma exigência obrigatória para programas de estágio, mas uma condição nem sempre comum entre jovens com deficiência intelectual.
Uma parceria com o CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola) ajudou o programa a selecionar os primeiros estagiários. Após as experiências iniciais, ficou claro que o programa precisava buscar a colaboração de quem tivesse conhecimentos específicos sobre a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Colaboração que veio por meio de uma parceria com a Apae-SP, assinada em dezembro de 2012. Os objetivos eram dois: capacitar os estagiários e também os servidores da CMSP envolvidos com o projeto.
O estágio na CMSP foi a primeira oportunidade de trabalho que a estudante Stephanie Lima Ferreira, hoje com 22 anos, encontrou na vida. Ninguém sabia o que esperar da experiência. Mesmo a ideia de que a menina passaria a sair de casa todos os dias para ir a um trabalho e voltar era algo que apavorava uma parte da sua família.
“Você é louca, vai soltar sua menina no centro da cidade, se acontecer alguma coisa a gente vai te culpar a vida inteira”, era o que uma tia de Stephanie costumava dizer para a mãe da jovem, Vanda Ferreira, no início do estágio. Nos primeiros dias, a menina ainda ia e voltava com os pais. Depois, passou a fazer o percurso sozinha. “Tia, se for para acontecer, vai acontecer, entrega na mão de Deus”, Stephanie respondia.
Trabalhando nas Comissões, ela atendia aos telefones e levava documentos aos gabinetes dos vereadores. Como tem dificuldades para ler e escrever, a equipe criou uma tabela com os nomes e as fotos dos vereadores para ajudá-la a se localizar nos labirintos do Palácio Anchieta.
Divisor de águas
A experiência deixou marcas fundas na vida de Stephanie. Hoje trabalha numa escola de inglês, onde a chamam de Formiguinha, porque “está sempre fazendo coisas”. Fazer coisas, resolver problemas, ter iniciativa: ela conta que o primeiro emprego, proporcionado pela Câmara, rendeu uma autonomia que ela nunca tivera. “Se eu não tivesse vindo aqui, acho que estaria do mesmo jeito, que nem antes, dependendo da minha família para fazer tudo”, diz. E não foi só o que mudou. “Antes, eu tinha poucas amizades. Agora, tenho um monte de amigo”, conta, feliz.
A CMSP modificou a vida de outros jovens com deficiência. Foram 38 estagiários que passaram pelo programa, sendo que 15 já estão inseridos no mercado de trabalho, em empresas como Credigy, Englishtown, Socicam, Renner, Le Lis Blanc, IMC SASTE e Manserv.
No ano passado, Stephanie candidatou-se e foi eleita suplente para o Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência. Hoje ativista, conta que a experiência do estágio mudou até sua relação com a própria deficiência: “Antes, eu tinha vergonha de falar para as pessoas”. Chegou a esconder a deficiência de um namorado. Para que ele não desconfiasse de nada, pedia que as irmãs lessem e respondessem por escrito as mensagens que ele mandava via Whatsapp, já que ela só consegue enviar áudios. Quando finalmente resolveu contar, foi aceita sem problemas e ainda descobriu que o namorado tinha um irmão com deficiência.
Até no ônibus, ela relata, um dia fez questão de dar uma lição em uma mulher que dizia lamentar o destino da filha, que, por ser deficiente visual, não poderia trabalhar. “Eu expliquei minha história para ela e falei assim: ‘eu sou conselheira e também tenho trabalho, quem falou que sua filha não pode chegar aonde cheguei?’” No Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência, diz que já discutiu com uma pessoa que a aconselhou a não falar em público. “Eu disse para ela que falaria, sim, e completei que antes de ser deficiente, sou uma pessoa.”
“A partir do trabalho na Câmara, mudou muito, muito, muito a vida da Stephanie”, conta sua mãe, Vanda. “Foi um divisor de águas.” Curiosamente, Alfredo, o supervisor de SGP.13, usa a mesma expressão de Vanda para se referir ao impacto que o programa trouxe à sua vida profissional: “O programa foi um divisor de águas para toda a equipe”.
Como transformou as vidas de Stephanie, de Alfredo e tantos outros, o Programa de Estágio para Estudantes com Deficiência Intelectual quer ir além. O próximo passo é incluir estagiários com outros tipos de deficiência, abrindo a possibilidade de transformação para mais e mais pessoas.

Fonte: Câmara Municipal de São Paulo (Intranet)

terça-feira, 22 de maio de 2018

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Hospital do Câncer de Barretos - HOSPITAL DO AMOR

Após 10 meses de trabalho, aí está o filme que apresenta o novo nome do Hospital de Câncer de Barretos: Hospital de Amor. A peça, criada pela WMcCann, Zombie Studio e LOUD, mostra o quanto essa palavrinha faz diferença no tratamento daqueles que literalmente perdem o chão por causa da doença. ❤
Por favor compartilhe, toda a criação e produção do vídeo foi doado pela agência e produtora e ficou sensacional!

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Garoto Autista Construiu Réplica do Titanic Usando Peças de LEGO


A maior réplica de Lego do Titanic foi construída ao longo de 700 horas – 11 meses – por um menino de 10 anos de Reykjavik, na Islândia, que está no espectro do autismo.

Brynjar Karl Bigisson, agora com 15 anos, construiu a réplica com 56.000 peças de Lego. Ela tem 8 metros de comprimento e 1,5 metro de altura.

Brynjar se lembra de brincar com Legos por horas, quando tinha 5 anos. “Às vezes eu construía com base em manuais de instruções e, às vezes, usava minha própria imaginação”, disse ele.

Na época, ele era obcecado por trens, mas isso mudou quando seu avô, Ludvik Ogmundsson, o levou para pescar em um barco, despertando interesse e apreço pelos navios. Até o momento Brynjar tinha 10 anos e sabia tudo o que havia para saber sobre o Titanic.

Quando viajei com a minha mãe para a Legoland na Dinamarca e vi pela primeira vez todos os fantásticos modelos de casas famosas e aviões, locais e navios, eu provavelmente comecei a pensar em fazer o meu próprio modelo de Lego. Assim que fiz 10 anos, comecei a pensar em construir um modelo do Titanic em Lego do tamanho de um personagem de Lego”, disse Brynjar.

O projeto foi algo de família, com o avô Ogmundsson, um engenheiro e a mãe Bjarney Ludviksdottir ajudando. Ogmundsson reduziu o modelo original do Titanic para o tamanho Lego e ajudou a descobrir quantos pequenas peças do brinquedo seriam necessárias para criar o modelo.

Ludviksdottir serviu como sua líder de torcida pessoal. “Se ela não tivesse apoiado o projeto dos meus sonhos, nunca teria sido uma realidade”, disse Brynjar.

Doações de familiares e amigos permitiram que ele comprasse todas as peças de Lego.

Brynjar diz que ele foi capaz de abraçar seu autismo através da construção da réplica do Titanic.

Antes de iniciar o projeto, ele teve dificuldade em se comunicar, o que, segundo ele, o deixou infeliz e solitário. Agora, ele tem confiança e está dando entrevistas sobre sua realização.

“Quando comecei o processo de construção, eu tinha uma pessoa me ajudando na escola em cada passo que eu dava, mas hoje estou estudando sem nenhum apoio. Minhas notas aumentaram e meus colegas de classe me consideram como seus colegas. Eu tive a oportunidade de viajar, explorar e conhecer pessoas maravilhosas”, disse ele.

A mãe de Brynjar disse que quando ela começou a criar seu filho, ela se sentiu totalmente cega a respeito de como seria seu futuro por causa de seu autismo, e se preocupou com os obstáculos que muitas crianças no espectro do autismo têm que superar. Ela agora se orgulha de compartilhar com outros pais de crianças no espectro do autismo que é possível alcançar seus objetivos.

“Quando seu filho vier até você com um grande sonho, missão ou objetivo louco que ele ou ela gostaria de alcançar, precisará de sua ajuda. Ouça atentamente e tente encontrar maneiras de ajudar a criança a alcançar esse objetivo. Pode acabar sendo o melhor investimento que você fará para o seu filho”, disse Ludviksdottir.