Segundo os debatedores, dois problemas continuam pesando muito: o preconceito e a falta de acessibilidade. A audiência apontou que muitos empregadores ainda agem com base em ideias erradas sobre autismo, associando a condição a incapacidade de convivência, instabilidade ou dificuldade automática de desempenho. O resultado é que muitas pessoas autistas seguem fora de vagas que poderiam ocupar com competência, desde que houvesse adaptação, escuta e respeito.
A discussão também reforçou que inclusão de verdade depende de mudanças práticas. Entre as barreiras citadas estão a falta de previsibilidade no ambiente de trabalho, dificuldades de comunicação, processos seletivos inadequados e ausência de recursos simples de acomodação, como redução de ruídos, atenção à sensibilidade à luz e avisos prévios sobre mudanças de rotina. Em outras palavras, o problema não está apenas na pessoa autista, mas no modo como a sociedade e as empresas ainda insistem em funcionar sem considerar diferentes formas de perceber o mundo.
Outro ponto muito importante levantado na audiência foi o direito das pessoas autistas de concorrerem às vagas reservadas pela Lei de Cotas para pessoas com deficiência. A auditora fiscal do trabalho Luciana Xavier Sans de Carvalho lembrou que essas cotas valem para empresas com mais de 100 funcionários e alertou para o risco de retrocessos ou esvaziamento dessa política. A fala chama atenção porque muita gente ainda desconhece que pessoas com TEA estão incluídas nessa proteção legal.
A audiência ainda mostrou um cenário preocupante: faltam dados públicos amplos sobre empregabilidade de pessoas autistas, apesar de o Censo 2022 já ter identificado 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo no Brasil, o equivalente a 1,2% da população. Quando o país conhece melhor essa realidade, fica mais difícil fingir que a exclusão é exceção. Ela é estrutural — e por isso precisa ser enfrentada com políticas públicas, fiscalização, formação de equipes e compromisso real das empresas.
Também houve relatos concretos de discriminação e incompreensão no trabalho. Um dos participantes citou o caso de um jovem autista que entrou em crise sensorial após um estímulo sonoro intenso e, em vez de receber acolhimento, foi tratado como caso de segurança. Histórias assim ajudam a entender por que tantas pessoas autistas escondem sua condição ao procurar emprego: muitas vezes, o medo do preconceito fala mais alto que a esperança de inclusão.
Ao mesmo tempo, a audiência trouxe sinais de caminho possível. Foi lembrado que pessoas autistas podem ter habilidades muito valiosas, inclusive hiperfoco em determinadas áreas, e que experiências bem-sucedidas de contratação já existem no Brasil, quando há mediação adequada e ambiente acolhedor. O debate mostrou que o desafio não é “se” pessoas autistas podem trabalhar, mas se o mercado está disposto a rever suas próprias barreiras.
Entendemos que essa pauta merece atenção especial. Inclusão profissional não pode ser vitrine nem discurso bonito de campanha institucional. Ela precisa virar prática diária, com respeito às diferenças, adaptações razoáveis e combate firme ao capacitismo. Quando o Senado dá visibilidade a esse tema, abre-se uma oportunidade importante para lembrar que emprego também é dignidade, autonomia e pertencimento social.

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