Importante: há quem critique o termo “cripface” por aproximá-lo demais de “blackface” e prefira expressões como “mímica da deficiência” ou “cripping up”. O centro da discussão, porém, continua o mesmo: quem tem espaço para contar essas histórias — e com que impacto.
Cinco produções brasileiras com exemplos do debate
Abaixo, cinco produções brasileiras em que atores sem a deficiência do personagem interpretaram PCDs (ou pessoas que adquirem deficiência na trama):
Viver a Vida (2009) — Luciana, cadeirante, interpretada por Alinne Moraes.
Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014) — Leonardo, adolescente cego, interpretado por Ghilherme Lobo.
Amor à Vida (2013) — Linda, jovem autista (TEA), interpretada por Bruna Linzmeyer.
Três Irmãs (2008) — Xande, que fica sem andar após um acidente (deficiência física na narrativa), interpretado por Dudu Azevedo.
América (2005) — Maria Flor (Flor), menina cega, interpretada por Bruna Marquezine.
Por que isso importa?
Porque não é só sobre “atuar bem”. É sobre acesso.
Trabalho e protagonismo: quando o papel PCD vai para quem não é PCD, o mercado reforça a mensagem: “vocês não cabem aqui”.
Autenticidade e complexidade: a deficiência não é figurino. Sem vivência e sem participação PCD no processo criativo, aumentam as chances de cair em clichês: “coitadinho”, “herói inspirador”, “lição de vida”, “cura milagrosa”.
Mudança estrutural: a justificativa “não achamos atores PCD” quase sempre revela o verdadeiro problema: testes inacessíveis, sets inacessíveis, falta de formação e de busca ativa, e pouco investimento em inclusão.
Caminhos mais justos (e melhores para a arte)
Se a indústria quer evoluir, há medidas concretas:
Audições acessíveis e busca ativa (parcerias com coletivos e escolas inclusivas de teatro/cinema).
Acessibilidade nos sets (locomoção, comunicação, tempo de trabalho, tecnologia assistiva).
Consultoria PCD e roteiristas PCD no núcleo criativo (não só “na ponta”).
PCDs também em papéis que não giram em torno da deficiência — porque a vida é muito maior do que o diagnóstico.
Para refletir
Representar é importante. Mas representar com justiça é ainda mais. Personagens PCDs não podem continuar sendo “o assunto” sem que as pessoas PCDs tenham voz, espaço e salário dentro e fora das telas.
Se você lembra de outras produções brasileiras que entram nesse debate (ou de exemplos positivos com elenco PCD), conte pra gente. Vamos ampliar essa conversa com respeito — e com compromisso com inclusão de verdade.
Referências (links)
Hand Talk — Cripface: https://www.handtalk.me/en/blog/cripface/
American Theatre — Disability justice / “wholeness” no palco: https://www.americantheatre.org/2021/03/26/practicing-disability-justice-honoring-wholeness-onstage/
NaTelinha (UOL) — personagem de Alinne Moraes em Viver a Vida: https://natelinha.uol.com.br/noticias/2010/05/17/alinne-moraes-comemora-sucesso-de-sua-personagem-em-quotviver-a-vidaquot-e-se-prepara-para-grava-30548.php
Revista Trip (UOL) — Hoje Eu Quero Voltar Sozinho: https://revistatrip.uol.com.br/tpm/hoje-eu-quero-voltar-sozinho
UOL Televisão — Bruna Linzmeyer em Amor à Vida: https://televisao.uol.com.br/noticias/redacao/2013/05/29/apos-estudar-nove-meses-para-viver-autista-em-amor-a-vida-bruna-linzmeyer-diz-que-nao-teme-criticas.htm
Correio Braziliense — representatividade PCD na TV (inclui Três Irmãs): https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2017/08/24/interna_diversao_arte%2C620237/representatividade-de-deficientes-fisicos-na-tv.shtml
gshow — Bruna Marquezine e a personagem Duda em América: https://gshow.globo.com/tv/noticia/bruna-marquezine-chora-ao-relembrar-historia-de-duda-menina-cega-que-auxiliou-a-atriz-em-america.ghtml
Repositório UFS — material acadêmico (cripface/capacitismo): https://ri.ufs.br/bitstream/riufs/21515/2/LORENA_GOMES_FREITAS_CASTRO.pdf

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