sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Orientação e Mobilidade: por que fazer curso antes de “sair por aí” com a bengala

Para uma pessoa com deficiência visual (cegueira ou baixa visão), a bengala de locomoção não é “apenas um acessório”: ela é um recurso de segurança, autonomia e participação social. Só que existe um detalhe essencial — bengala não se usa “no improviso”. O uso correto depende de técnicas que são ensinadas em cursos de Orientação e Mobilidade (O&M), conduzidos por profissionais especializados.

O que é Orientação e Mobilidade (O&M)?

De forma simples: orientação é aprender a entender onde você está e para onde quer ir usando informações do ambiente (sons, cheiros, texturas, referência espacial e, quando existe, visão residual). Mobilidade é aprender a se deslocar com segurança e eficiência para chegar ao destino.

Não é teoria “bonita”: O&M é um conjunto de habilidades práticas que ajuda a pessoa com deficiência visual a conquistar autonomia e inclusão no dia a dia.


Por que a bengala precisa de treinamento?

1) Porque ela protege — mas só se estiver bem usada

A bengala funciona como uma “extensão do corpo” para detectar desníveis, obstáculos e mudanças de piso. Para isso, existem técnicas específicas (postura, empunhadura, varredura/toque, alinhamento do corpo, ritmo de marcha), que são ensinadas e ajustadas para cada pessoa. Materiais técnicos de O&M descrevem que técnicas diferentes são usadas em situações diferentes (ambiente interno, externo, com guia vidente, etc.), justamente para manter a segurança.

Sem orientação, é comum a pessoa:

  • varrer a bengala “curta demais” (não antecipa o obstáculo),

  • usar empunhadura inadequada (cansaço, dor, perda de controle),

  • caminhar com desalinhamento corporal (desorientação, risco de queda),

  • depender demais de acompanhantes por falta de estratégia.

2) Porque O&M reduz riscos e aumenta confiança

O&M treina desde o básico (percepção corporal, proteção, noções de rota) até situações reais: atravessar portas, lidar com passagens estreitas, usar referência de guia, circular em ambientes movimentados, organizar rotas e tomar decisões com mais autonomia.

Resultado prático: menos tropeços, menos colisões, menos medo, mais independência.

3) Porque cada deficiência visual é diferente

Nem toda pessoa com deficiência visual tem as mesmas necessidades:

  • pessoas com baixa visão podem usar visão residual como apoio,

  • algumas têm sensibilidade à luz, campo visual reduzido ou baixa percepção de contraste,

  • outras precisam adaptar a estratégia por condições associadas (equilíbrio, mobilidade, fadiga).

Por isso, muitas instituições reforçam a importância de avaliação e acompanhamento em O&M, para que as técnicas sejam realmente adequadas a cada caso.

4) Porque a bengala também é comunicação social

No caso da bengala verde, além de auxiliar na mobilidade, ela ajuda a sociedade a entender que aquela pessoa tem baixa visão (e não necessariamente cegueira total), favorecendo abordagens mais respeitosas e ajustes de convivência.


O&M não é só “andar”: é autonomia com dignidade

Quando a pessoa aprende O&M, ela não ganha apenas técnica — ela ganha:

  • liberdade de ir e vir, com mais independência;

  • redução da dependência de familiares para tarefas simples;

  • participação social (estudo, trabalho, lazer, cultura);

  • segurança emocional (menos ansiedade ao circular);

  • capacidade de planejar e resolver problemas de rota.

E há um ponto social importante: quando mais pessoas com deficiência visual circulam com segurança, a cidade também é “educada” na prática — cresce a consciência sobre acessibilidade, respeito e inclusão.


Destaque: curso do Instituto Bengala Verde

Uma iniciativa que merece atenção é o Instituto Bengala Verde, que divulga um Programa de Orientação e Mobilidade à Distância, voltado ao aprendizado das técnicas essenciais para a pessoa se mover com mais confiança (inclusive com a proposta de estudar no conforto de casa).

Para quem está começando ou para quem já usa bengala, mas sente insegurança, um curso assim pode ser a diferença entre “ter a bengala” e saber usá-la de verdade.


Uma mensagem final do Cantinho

Se você é pessoa com deficiência visual, familiar, amigo, professor ou cuidador: incentive O&M. A bengala é poderosa — mas o curso é o que transforma essa ferramenta em autonomia real.

E para a sociedade em geral, fica o lembrete: autonomia não é “favorecimento”; é direito. Respeito também se aprende — e começa com informação.


Referências (links e perfis)

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