A data está inserida na Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla, celebrada de 21 a 28 de agosto e instituída oficialmente pela Lei nº 13.585/2017. Mais do que preencher uma data no calendário, esse período existe para chamar a atenção para a inclusão social, as políticas públicas e o combate ao preconceito e à discriminação.
O que é deficiência intelectual?
A deficiência intelectual está relacionada a limitações no funcionamento intelectual e em determinadas habilidades necessárias à vida cotidiana, que podem envolver aprendizagem, comunicação, compreensão, resolução de problemas, relações sociais e autonomia.
Mas essa definição não pode ser transformada em um rótulo.
Ter deficiência intelectual não significa não aprender. Não significa não compreender sentimentos. Não significa não ter desejos, opiniões, talentos ou capacidade de fazer escolhas.
Cada pessoa é única. Algumas necessitarão de mais apoio em determinadas atividades; outras conquistarão grande autonomia. E mesmo duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar habilidades e necessidades completamente diferentes.
Por isso, talvez uma das palavras mais importantes quando falamos de deficiência intelectual seja apoio.
A pergunta não deveria ser apenas:
"O que essa pessoa consegue fazer?"
Também deveríamos perguntar:
"De que apoio ela precisa para conseguir fazer?"
Ajudar não é fazer tudo pela pessoa
Existe uma diferença enorme entre oferecer apoio e substituir a pessoa.
Muitas vezes, movidos pela boa intenção, familiares, profissionais e outras pessoas acabam fazendo tudo pela pessoa com deficiência intelectual. Escolhem por ela, respondem por ela, decidem o que ela pode ou não fazer e, às vezes, sequer perguntam sua opinião.
Isso pode parecer proteção.
Mas proteção excessiva também pode se transformar em uma barreira à autonomia.
Se uma pessoa consegue realizar determinada tarefa com orientação, talvez seja melhor orientá-la do que simplesmente fazer por ela.
Se precisa de mais tempo para responder, devemos oferecer esse tempo.
Se consegue escolher entre duas possibilidades, devemos permitir que escolha.
Se consegue participar de uma decisão sobre sua própria vida, sua voz precisa ser ouvida.
Autonomia não significa fazer tudo sozinho. Significa participar das decisões e exercer o máximo possível de controle sobre a própria vida, utilizando os apoios necessários.
Não infantilize a pessoa adulta
Outro preconceito bastante comum é tratar adultos com deficiência intelectual como se fossem crianças.
Uma pessoa adulta continua sendo adulta.
Pode namorar, trabalhar, estudar, ter amigos, praticar esportes, participar de atividades culturais, expressar preferências, discordar, tomar decisões e construir projetos para sua vida, de acordo com suas possibilidades e com os apoios de que necessite.
Falar com voz infantilizada, ignorar sua presença numa conversa ou dirigir todas as perguntas ao acompanhante são atitudes que precisam ser revistas.
Uma regra simples pode ajudar:
se você quer saber alguma coisa sobre uma pessoa com deficiência intelectual, fale primeiro com ela.
Caso ela necessite do auxílio do acompanhante para compreender ou responder, esse apoio poderá acontecer. Mas ela não deve se tornar invisível apenas porque existe alguém ao seu lado.
Inclusão não é apenas estar no mesmo lugar
Colocar uma pessoa com deficiência dentro de uma escola, empresa, passeio, igreja, restaurante ou atividade social não significa necessariamente incluí-la.
Ela está conseguindo participar?
As informações são apresentadas de maneira que possa compreender?
As pessoas têm paciência para ouvi-la?
Há oportunidade real de convivência?
Suas capacidades estão sendo estimuladas?
Suas escolhas são respeitadas?
Ela pertence àquele ambiente ou está apenas fisicamente presente?
Inclusão verdadeira acontece quando existe participação.
Isso exige acessibilidade, e acessibilidade não se resume a rampas, elevadores e banheiros adaptados. Para muitas pessoas com deficiência intelectual, ela também envolve comunicação simples, informações claras, recursos visuais, explicações objetivas, repetição quando necessária e tempo adequado para compreensão.
A oportunidade pode revelar aquilo que o preconceito esconde
Talvez uma das maiores injustiças enfrentadas pelas pessoas com deficiência intelectual aconteça quando alguém decide antecipadamente aquilo que elas não conseguirão fazer.
"Ela não vai aprender."
"Ele não consegue."
"É melhor não tentar."
"Deixa que eu faço."
Quando essas frases aparecem antes mesmo da oportunidade, não estamos descobrindo os limites daquela pessoa. Estamos impondo os nossos próprios limites a ela.
Uma pessoa pode precisar aprender de maneira diferente.
Pode precisar de mais tempo.
Pode necessitar de apoio.
Pode não alcançar determinado objetivo.
Mas ela precisa ter o direito de tentar.
A própria campanha da Semana Nacional tem chamado atenção para uma ideia essencial: a deficiência não pode ser usada para apagar a voz da pessoa ou determinar antecipadamente o seu lugar na sociedade.
Nada sobre a pessoa sem ouvir a pessoa
Durante muito tempo, a sociedade falou sobre as pessoas com deficiência.
Depois, começou a falar para elas.
O passo fundamental é aprender a falar com elas — e, sobretudo, ouvi-las.
Famílias são fundamentais. Profissionais são fundamentais. Educadores e cuidadores são fundamentais.
Mas a pessoa com deficiência intelectual não pode ser apenas objeto das decisões tomadas pelos outros.
Sempre que possível, deve ser protagonista da própria história.
Neste 22 de agosto, portanto, o Cantinho dos Amigos Especiais deixa um convite que vai muito além de uma data comemorativa:
não faça pela pessoa aquilo que ela pode aprender a fazer.
Não responda por ela quando ela pode responder.
Não escolha por ela quando ela pode escolher.
Não determine seus limites antes de oferecer oportunidades.
E não permita que a deficiência venha antes da pessoa.
Porque inclusão não significa tratar todo mundo exatamente da mesma maneira.
Inclusão significa reconhecer diferenças, oferecer os apoios necessários e garantir que cada pessoa tenha oportunidade de participar da sociedade com dignidade, respeito, voz e autonomia.
Deficiência intelectual não apaga sonhos, sentimentos, preferências ou personalidade.
Antes de qualquer diagnóstico, existe uma pessoa.
E é por ela que toda inclusão deve começar.
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